sábado, 25 de junho de 2011

A sordidez humana, por Lya Luft

"Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça
alheia? Quem é esse em nós, que ri quando
o outro cai na calçada?" 

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.
Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?
O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: "Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha". Ou: "Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele". Mais ainda: "O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...". Outras pérolas: "Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...".
Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.
Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer "Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...", e aí se lança o malcheiroso petardo.
Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças... e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.
A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Aprenda a jogar Filosofighters... da Revista Super Interessante, por Otávio Cohen


A SUPER convocou 9 filósofos de diferentes épocas e regiões para uma épica batalha de ideias nos ringues do Filosofighters. O seu objetivo é usar argumentos lógicos e golpes na luta contra o seu adversário. Mas antes de sair por aí espalhando suas teorias pela academia, é preciso treinar bastante. Que tal praticar bastante no modo Aprendiz do Filosofighters? Depois que derrotar todos os inimigos, passe para o modo Mestre e, por fim, enfrente os desafios do modo PhD.
A gente te dá uma forcinha nesse treinamento e te ensina algumas manhas do Filosofighters. Está pronto? Então, vamos lá. Para começar, aprenda os comandos básicos:

Também dá para atacar com os golpes especiais. Olha só este exemplo do Nietzsche:

















Tente as mesmas sequências de comandos para os outros filósofos. Aproveite e aprenda um pouco mais sobre alguns dos principais pensamentos dos nove filosofighters. Você pode se surpreender com as teorias aplicadas nas lutas.  Agora, é hora de colocar em prática. Jogue em http://super.abril.com.br/multimidia/filosofighters-631063.shtml.

Fonte: http://super.abril.com.br/blogs/superblog/aprenda-a-jogar-filosofighters/

domingo, 12 de junho de 2011

A arte de fazer escolhas, por Eugenio Mussak


Parece que cada vez mais temos que optar por isto ou aquilo. Mas como nos prepararmos para tantas decisões?



Tomar um sorvete figura entre meus programas favoritos quando vou a Manaus. Trata-se de uma experiência diferente de qualquer outro lugar do mundo, não porque os manauaras dominem técnicas secretas da arte dos gelados que nem os italianos conhecem, mas porque eles dispõem de matériaprima invejável: as frutas amazônicas, com seus sabores incríveis. As mais conhecidas, como o açaí, o cupuaçu, a graviola e o buriti, estão entre elas, mas não são as únicas, apesar de que apenas elas já colocam o freguês em uma situação de difícil decisão. “Não posso pedir uma bola de cada?”, perguntei ao atendente da sorveteria, para ouvir a resposta óbvia: “Claro que o senhor pode, mas vai ter que levar uma caixa, não apenas uma casquinha”. Como eu só queria um sorvete para sair lambendo enquanto caminhava pelo quente entardecer tropical, não me restou alternativa a não ser escolher dois sabores, abrindo mão de todos os demais. Pelo menos por enquanto.

O que poderia ter sido apenas um acontecimento corriqueiro me colocou em contato com uma questão filosófica: a necessidade de fazer escolhas na vida. Enquanto saboreava meu manjar amazônico, não pude deixar de aprofundar meu pensamento da questão das escolhas e, claro, lembrei-me de algumas das mais difíceis que tive que fazer ao longo de minha trajetória. E de repente me dei conta de que escolher é uma das coisas a que mais o homem se dedica. Não há um dia sequer que não tenhamos que escolher algo e abrir mão de algo também.

É claro que, na maioria das vezes, fazemos escolhas simples, como o sabor do sorvete, a cor da gravata ou o filme a assistir. Mas quem não sofreu calado quando teve que decidir que vestibular fazer? Ou quando recebeu uma proposta para mudar de emprego? E, suprema decisão, que atire a primeira pedra quem nunca esteve dividido entre dois amores.

Sim, parece que passamos a vida decidindo, e, ainda que a maioria das pessoas não tenha essa consciência, os momentos de decisão são, também, momentos de ansiedade. Só que uma ansiedade que deriva de uma coisa boa: a existência de mais de uma opção. A rigor, a ansiedade de escolher é a de ser livre. Escolher é exercer a liberdade, com suas prerrogativas e responsabilidades. E a liberdade só pode ser bem exercida por quem está preparado para ela, ou seja, quem tem maturidade intelectual e emocional para tanto. A liberdade é um valor adulto.

Poder escolher é uma conquista. Então por que às vezes sofremos com isso? A escolha é um privilégio, o problema é a renúncia. Ao escolher dois sabores de sorvete, você abre mão de todos os demais. Até aí, tudo bem – sempre dá para voltar amanhã. O que nos martiriza são as renúncias definitivas ou aquelas que nos causam insegurança. Para os mortais comuns, a escolha da carreira, por exemplo, significa renunciar a uma grande quantidade de opções, talvez melhores.

Ainda que uma carreira não seja uma condenação, pois sempre é possível mudar, tal escolha carrega o peso de que, depois de investir anos em estudos e sonhos, não é exatamente fácil dar a guinada. Em nosso sistema educacional ainda há o agravante de que a escolha tem que ser feita por garotos recém-saídos da adolescência. A inscrição no vestibular é, por esse motivo, um momento de tensão. Como fui professor de cursinho pré-vestibular, acompanhei muitos desses dramas.

Vi de tudo. De jovens cheios de certeza àqueles que procuravam orientação vocacional em clínicas especializadas, passando pelos menos previdentes que, na hora H, apelavam até para um jogo de par ou ímpar. “Se der par faço biológicas. Se der ímpar faço humanas”. Dá para imaginar a ansiedade? É evidente que não é assim que devemos escolher. Uma escolha é uma decisão e, como tal, obedece a uma lógica. A técnica de tomada de decisões tem um mandamento: quanto maior o número de variáveis consideradas na tomada de decisão, maior a probabilidade de acerto. Em outras palavras, escolher significa pesar todos os prós e contras, inclusive projetando-os no tempo – a variável mais abstrata.

E dá para fazer isso o tempo todo? Cada vez que eu quiser almoçar fora, para escolher o restaurante vou ter que montar uma planilha no Excel, com colunas de vantagens e desvantagens, considerando o desejo, a saúde, o preço, o ambiente etc.? Por incrível que pareça, sim, é isso mesmo que fazemos, sem usar um computador e um software, mas lançando mão de algoritmos mentais que consultam todas essas variáveis rapidamente, emitindo, inclusive, notas ponderadas.

Você pode, por exemplo, decidir por um restaurante caro (nota alta na coluna do “não”) porque ele vai ajudá-lo a impressionar a namorada (nota altíssima na coluna do “sim”). E você faz isso mentalmente, consultando a lógica (tenho o dinheiro), a emoção (estou apaixonado) e o fator tempo (é agora ou nunca).

Então estamos condenados a conviver com a dúvida de termos feito a escolha certa? Se tomar uma decisão provoca ansiedade, muito pior é não ter a oportunidade de decidir. Pense nas pessoas que você conhece, especialmente das gerações com mais vivência, que se queixam de estarem fazendo algumas coisas por não terem tido a oportunidade de fazer outras. “Eu não tive a chance de estudar”; “Na minha época a gente casava com o primeiro pretendente”; “Eu tive que continuar o negócio da família” – esses são apenas alguns dos lamentos mais comuns de pessoas que, aparentemente, não puderam escolher.

Se pudessem – ou se percebessem que podiam –, muitas delas teriam dado rumos diferentes às suas vidas. Poder escolher é bom, muito bom, ainda que dê alguma dor de cabeça. Escolher angustia, não poder escolher mortifica.

Em inglês, escolher é to choice, mas os americanos, sempre práticos, utilizam uma expressão curiosa para falar sobre escolhas, especialmente no mundo dos negócios, em que os executivos vivem tendo que tomar decisões – trade off. Mais do que uma escolha, a expressão trade off quer significar uma troca.

E a troca significa uma espécie de condenação determinista a que todos estamos sujeitos. Afinal, não se pode ter tudo. Quer isto? Então não vai ter aquilo! E lamba os beiços, porque tem gente que não vai ter isto nem aquilo – parece dizer o destino, com seu olhar de reprovação diante de nosso desespero.

Às vezes temos, sim, que fazer escolhas difíceis, e sofremos muito por causa disso. Até a literatura já se debruçou sobre o tema. O escritor americano William Styron levou o drama da escolha a um nível épico em seu livro A Escolha de Sofia, que virou filme e rendeu um Oscar de melhor atriz para Meryl Streep.

O enredo trata da situação vivida por uma mãe judia, que é forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha, ambos crianças. Só um poderia ser salvo, o outro seria executado. Se ela não escolhesse um, ambos seriam mortos.

No limite da decisão ela opta por poupar o garoto, pois, por ser mais forte, teria mais chance de sobreviver (imagine o sofrimento e a velocidade com que ela montou a tal planilha mental). Como agravante, nem dele teve mais notícias.

A história é ambientada no pósguerra, com a protagonista já vivendo nos Estados Unidos, tentando reconstruir a vida, mas sempre atormentada por aquele momento dramático em que teve que fazer a escolha mortal. A força do drama relatado pelo autor transformou o título em sinônimo de decisão quase impossível de ser tomada. Daquelas que nunca teremos certeza de termos acertado.

A maioria de nós jamais terá que tomar uma decisão tão dramática, mas com certeza todos viveremos momentos difíceis, em que o fantasma da dúvida de termos decidido certo assombrará nossa memória, talvez por muito tempo.

É bem verdade que a tomada da decisão diminui a ansiedade, apesar da dúvida. “É este, pronto!”– e vamos em frente. Ainda assim, sofremos um pouquinho. Sociedades modernas, livres, democráticas, têm essa qualidade – o cidadão tem de fazer escolhas diariamente. Trata-se de um direito e até de uma obrigação. Nos regimes totalitários, o Estado considera os cidadãos incapazes de escolher seus próprios caminhos, por isso ele os tutela, trata-os como menores irresponsáveis, que devem apenas concordar e obedecer. São títeres nas mãos dos poderosos. E pensar que há famílias que também são assim.

No mundo livre acontece o oposto. Quem se recusa a escolher os rumos de sua vida vira uma espécie de pária, um estorvo para os demais. Sempre lembrando que qualquer escolha pressupõe responsabilidade sobre ela. Apesar disso, ter a oportunidade de escolher o que fazer com sua vida, no macro ou no microcosmo da existência, ainda é a melhor situação, disparado.

E, já que você escolheu ler este texto até o fim, espero que tenha gostado e que ele tenha agregado pitadas de lógica a seu autoconhecimento. Afinal, conhecer-se e saber pensar são dois elementos fundamentais na hora das decisões. Grandes ou pequenas.

domingo, 29 de maio de 2011

A tigresa e o Sputnik, por Tiago Lethbridge

Ameaçar, chantagear, chamar crianças de "lixo" - a obsessão das mães pela educação dos filhos explica o desempenho espetacular dos alunos chineses?

Foto: Dreamstime
A rígida disciplina é o método defendido pela mãe chinesa Amy Chua para a educação de seus filhos

No início de dezembro, os Estados Unidos viveram aquilo que o presidente Barack Obama apelidou de um novo "momento Sputnik". Como se sabe, o lançamento do primeiro satélite soviético, em 1957, mostrou aos Estados Unidos que sua hegemonia tecnológica na Guerra Fria estava seriamente ameaçada - e, por consequência, a segurança nacional também. Meio século depois, o motivo de preocupação do presidente americano é a ascensão de outra potência, a China. Mas o que o incomoda não são seus foguetes, o tamanho de seu Exército ou a ameaça à soberania dos vizinhos. O "momento Sputnik" do século 21 foi um teste feito com estudantes do mundo inteiro. A avaliação mostrou que os alunos chineses dão um banho em seus colegas americanos - não só neles, aliás, mas em todos os outros. Eles ficaram em primeiro lugar em matemática, ciência e leitura, os três temas avaliados. O comentário de Obama mostra em que medida o desempenho escolar dos chineses gera ansiedade na maior potência do mundo - a sensação de que a América decadente está fadada ao atropelamento pelos geninhos do Império do Meio. O que impressiona, sobretudo, é a velocidade com que isso aconteceu: meros 30 anos atrás, a China saía dos escombros da Revolução Cultural maoísta analfabeta de pai e mãe.

Como isso foi possível? Um livro recém-lançado nos Estados Unidos vem lançando luz - e spray de pimenta - nessa discussão. É Battle Hymn of the Tiger Mother (algo como "Hino de batalha da mãe-tigre", numa tradução livre), da professora de direito americana Amy Chua. Filha de imigrantes chineses, Amy conta no livro como educou as duas filhas, Sophia e Louisa. Ela resume seu método na primeira página do livro, em dez mandamentos. Suas filhas nunca puderam: 1) dormir na casa dos amigos; 2) sair com os amigos; 3) participar de uma peça da escola; 4) reclamar por não participar de uma peça da escola; 5) assistir à TV ou jogar videogame; 6) escolher suas próprias atividades extracurriculares; 7) tirar qualquer nota que não fosse 10; 8) não ser a primeira aluna da turma em qualquer tema, exceto educação física e teatro; 9) tocar qualquer instrumento que não piano ou violino; 10) não tocar piano ou violino. Eis, no resumo de Amy Chua, a base do modelo educacional à chinesa.

Seu projeto parte do pressuposto de que encontrará nas filhas uma obediência irrestrita. "No Ocidente, obediência é um termo associado a cachorros", escreve ela. Na China, claro, é diferente. Amy comanda o show, e a opinião das crianças vale quase nada. "Para ser bom em alguma coisa, é preciso trabalhar. E crianças nunca vão trabalhar por vontade própria. Por isso, é crucial passar por cima das opiniões delas." Tirar apenas a nota máxima na escola, ficar dois anos à frente dos colegas de classe em matemática, tudo isso era o básico. Com 3 anos, escreve, sua filha mais velha já escrevia mais de 100 caracteres chineses e lia existencialistas franceses. Ela decidiu, então, que as filhas deveriam ter um "hobby" - a música. Entra em cena a obsessão da mãe por criar dois gênios da música. As sessões diárias de estudo passavam de 90 minutos, e suas filhas nunca perderam um dia de aula (aniversários, doenças e operações dentárias não eram desculpa). Em viagens com a família, Amy ligava com antecedência para os hotéis em que se hospedariam para checar se havia um piano disponível para que Sophia, a primogênita, praticasse e voltasse das férias à frente das outras alunas. Relaxar nas férias? Coisa de ocidental.

Amy lista as diferenças principais entre o que chama de estilo chinês de maternidade e estilo americano ou ocidental. Enquanto os ocidentais se preocupam com a autoestima das crianças, temem os efeitos do excesso de cobrança e as elogiam se tiram, por exemplo, B em matemática, os chineses não estão nem aí - eles partem do princípio de que a criança é forte, não fraca, e de que sua obrigação é exigir o melhor. "Pais chineses pedem notas perfeitas porque acreditam que seus filhos podem obtê-las." Além disso, eles consideram que os filhos devem tudo aos pais: as crianças devem passar a vida inteira obcecadas em orgulhar os pais com vitórias. Em casas ocidentais, escreve, tem-se a impressão de que são os pais que devem tudo aos filhos. A consequência é a criação em massa de mimados medíocres, habituados a se dar bem na vida sem esforço.

Há, como se poderia esperar, certa ausência de afeto nessa história toda. Na verdade, a relação de Amy com as filhas faz lembrar em alguns momentos a batalha de Stalingrado. Quando Louisa, sua caçula, se recusou a tocar piano com os dedos em vez de esmurrar as teclas com as mãos, foi carregada para fora de casa para sentir o frio congelante do inverno como punição. Ela tinha 3 anos. Para forçar as filhas a se dedicar aos instrumentos, as táticas eram as mais variadas. Entre elas, coerção, chantagem e ameaça de tabefes. As filhas só podiam interromper as sessões de piano ou violino após executar perfeitamente a tarefa do dia - parar para ir ao banheiro ou beber água, por exemplo, era item fora de cogitação. As amigas de faculdade se espantaram ao descobrir que uma das táticas de incentivo usadas por Amy era chamar as filhas de "lixo" (nunca elogiá-las em público é uma peça-chave da estratégia de Amy, indignada quando vê crianças ocidentais sendo aclamadas pela família por executar tarefas banais). O sucesso, escreve Amy, transforma problemas dessa natureza em detalhes irrelevantes. Ele faz com que a criança receba elogios e seja objeto de admiração. Com isso, o que era um estorvo se torna divertido. E, assim, os pais podem forçar ainda mais a barra na transformação de filhos em geninhos. Em sua busca pela perfeição, Amy devolveu um cartão de aniversário dado pelas filhas por considerá-lo simplório. Mandou que fizessem outro mais caprichado. "Meu objetivo é te preparar para o futuro, não ser amada por você", dizia às filhas.

O estilo de educação de Amy deu certo? Claro, ainda é cedo para dizer - e só quem pode falar com autoridade sobre o assunto são Sophia e Louisa, ambas adolescentes. Sophia se apresentou no Carnegie Hall há quatro anos. Louisa, além de uma talentosa violinista, é a primeira aluna da sala. Ambas ajudaram a mãe a escrever o livro. A própria autora se considera fruto desse sistema. Quando tirou segundo lugar num concurso de história na escola, ouviu do pai: "Nunca, nunca me envergonhe desse jeito outra vez". Ela mesma reconhece que esse modelo corre o risco de dar errado. E, quando dá errado, é desastroso. É sabido que o índice de suicídio entre jovens na comunidade asiática americana é o maior do país. O tema é, por definição, polêmico. A publicação de um capítulo do livro no Wall Street Journal desencadeou uma onda de protestos direcionados à autora. O título dado pelo jornal, "Por que as mães chinesas são melhores", fez com que o livro acabasse pisando no calo de que falou Obama ao descrever o "novo Sputnik". Mesmo com seus notórios exageros (a própria caçula a chama de louca num trecho do livro), a dedicação obsessiva de Amy Chua à formação de suas filhas faz pensar: o sistema educacional de um país, afinal de contas, não começa em casa? Os alunos brasileiros ficaram em 53º lugar no mesmo teste que a China liderou. Maus professores, estrutura precária, falta de cobrança, governos incompetentes, tudo isso entra na maçaroca geral na hora de atribuir culpados por nosso desempenho sofrível. Amy Chua faria questão de incluir os pais brasileiros nessa lista.

sábado, 14 de maio de 2011

A deseducação no Brasil, por Wolmer Ricardo Tavares

     Escola não é o primeiro lugar a se educar o indivíduo, mas na maioria das vezes é o primeiro lugar a deseducá-lo. Será nesse ambiente que o aluno irá dar continuidade a sua socialização, passo fundamental para aprender novos valores. Mas a questão é: Que valores serão esses? O que a sociedade espera do indivíduo? Até que ponto a escola é obrigada a “formar” e não a educar os alunos?
     Ao analisarmos a palavra “formar”, leva-nos a alusões como colocar em forma, o mesmo que padronizar, estandardizar, isto é, fazer com que os educandos tenham o mesmo comportamento, atitude e maneira de pensar. Podemos também trabalhar a palavra “formar” no sentido de construir, dar forma, que é uma outra divergência do que é esperado, pois, com a globalização e o dinamismo das informações, percebe-se que nem os profissionais encontram-se formados, ou seja, eles estão em constante formação, por isso então a escola não forma, apenas faz o aluno galgar os primeiros degraus de sua construção como cidadão e protagonista.

     Seria uma quimera imaginar uma escola a qual o conhecimento não seja tão institucionalizado? É a tão conhecida pedagogia da autonomia, conceito esse aplicado em regiões na qual a educação é vista como fator de suma importância para o crescimento e desenvolvimento, por isso, ela é investimento. No Brasil, a educação é vista como gasto, e por isso se aplica a pedagogia do empurrão ou pedagogia do emburrecimento, ou seja, reprovação zero, reprovação essa que, apesar de não existir mais nas escolas, existirá na vida.
     A escola está preparando esse aluno para o quê? Quando o educando sair desse sistema, a sociedade irá se lembrar que não existe reprovação e, consequentemente, não irá reprová-lo também? Será que estamos preparando nossos educandos para se tornarem homens de bem? Sêneca (por volta de 4 a. C. – 65) insistia na educação para a vida e a individualidade: “non scholae, sed vitae est docendum”, isto é, “não se deve ensinar para a escola mas para a vida” e para que vida estamos ensinando nossos alunos? Uma vida de mediocridades e de miséria que fará do educando um mero escravo do destino?
     Este trabalho tem o intuito de levantar dúvidas e fomentar uma criticidade no educador fazendo com que o mesmo analise até que ponto se sente manipulado por um discurso que se faz imperar uma demagogia e o leva a ser mais um multiplicador de números que mascaram uma realidade que violenta a dignidade de um povo. Precisamos fugir da esperança, pois ela apenas prolongará o nosso tormento, deixando-nos passivos e inertes. Necessitamos apenas de atitudes. Será que estamos tão cansados a ponto de nadarmos contra uma maré de descasos com a verdadeira educação?
     Precisamos repensar a função da escola e o ato de educar e sair de nossa passividade intensa, de nosso estado cataléptico para um protagonismo que implicará em mudanças.
     Terezinha Azerêdo Rios nos mostra uma visão pessimista sobre a escola enquanto a sociedade apresentar suas limitações e, em contrapartida, nos dá também uma visão otimista falando que uma boa escola ajuda a uma boa sociedade. A questão é: quem é o maior influenciador nesse processo? A sociedade ou a escola? Seja qual for a sua resposta, não estamos levando nossos alunos a uma reflexão. Estamos alienando-os cada vez mais e tornando-os manipuláveis por um poder corruptor.
     Cabe à escola oferecer ao aluno um agir interativo com o seu contexto, com uma identidade responsável, e dar forma ao conhecimento que será aplicado as suas necessidades sentidas e vivenciadas com o seu entorno.

     Texto de Wolmer Ricardo Tavares, mestre em Educação e Sociedade e docente da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC) – campus Lafaiete. E-mail: wolmertavares@gmail.com 

Fonte: Profissão Mestre - Jornal Virtual  - Ano 9 - Nº 214-13/05/2011

sábado, 7 de maio de 2011

14 perguntas e respostas sobre projetos didáticos

Eles trazem a vida real para a sala de aula, envolvem mais as crianças nas atividades e, com alguns conteúdos, são a melhor forma de trabalhar. Porém, ainda geram muitas dúvidas

Por Anderson Moço (novaescola@atleitor.com.br)

1 -  O que é projeto didático?

Projeto didático é um tipo de organização e planejamento do tempo e dos conteúdos que envolve uma situação- problema. Seu objetivo é articular propósitos didáticos (o que os alunos devem aprender) e propósitos sociais (o trabalho tem um produto final, como um livro ou uma exposição, que vai ser apreciado por alguém). Além de dar um sentido mais amplo às práticas escolares, o projeto evita a fragmentação dos conteúdos e torna a garotada corresponsável pela própria aprendizagem.
Os projetos estão mais populares do que nunca. Redes de todo o país incentivam o trabalho com essa modalidade e algumas escolas preveem no currículo os que serão realizados durante o ano. Boa notícia. Afinal, em muitos casos, eles ajudam a ensinar mais e melhor. Porém falta informação sobre o tema. Só neste ano, NOVA ESCOLA recebeu 166 e-mails com dúvidas. Compiladas em 14 questões, elas são respondidas nesta reportagem para ajudar você a dominar essa ferramenta.

Continue lendo

Publicado em NOVA ESCOLA, Edição 241, Abril 2011, com o título Tudo o que você sempre quis saber sobre projetos.
    Fonte: Revista Nova Escola

    sexta-feira, 22 de abril de 2011

    Folga mental

    Perder o foco às vezes é importante. Precisamos disso para criar, inventar ou simplesmente viver bem.

    texto Roberta De Lucca | ilustração Otavio Silveira fotos Renato Parada 

    Era um dia qualquer e o matemático foi tomar banho. Ao entrar na banheira, percebeu que o volume de seu corpo imerso movimentava um volume igual de água. Naquele momento ele não se conteve. Saiu da banheira, atravessou a porta em direção à rua e, completamente nu, gritou “Eureca! Eureca!” (“Descobri”, em grego). Foi desse jeito, íntimo e inesperado, que o grego Arquimedes (287-212 a.C.) resolveu um problema que o atormentava havia tempo: descobrir se a coroa encomendada pelo rei de Siracusa era totalmente de ouro ou se o artesão contratado havia misturado prata (metal mais barato) à joia. Essa história – contada pela primeira vez pelo arquiteto romano Vitrúvio cerca de 200 anos mais tarde, e que acabou se tornando lenda – mostra que a partir de observações simples Arquimedes teria desenvolvido parte de sua importante teoria sobre a lei do empuxo.

    Talvez ele nem estivesse pensando na coroa naquele momento. Quem sabe se preparava para participar de um banquete, ou estava simplesmente tomando um relaxante banho. O fato é que Arquimedes teve o impulso de observar o movimento da água na banheira – igual a um gato que fica “viajando” enquanto vê o líquido indo para lá e para cá em seu pote de água – e disso veio o insight para a solução do problema. Mesmo que não se saiba até que ponto essa história é verídica ou lenda urbana da Grécia antiga, ela revela que a mente despreocupada, divagante, é matériaprima para o pensamento, a existência e a evolução humana. Devanear, portanto, é importante para a vida.

    Reunião de referências Pode parecer exagero dizer que devemos “viajar na maionese” para viver, mas sem essa viagem não alargamos nossos horizontes para abraçar tudo o que pudermos alcançar. Claro que é possível viver e curtir a vida numa rotina estabelecida, sem muitos riscos e surpresas que podem nos “tirar do prumo”. Mas deixar-se levar pelos pensamentos e ideias aparentemente desencadeados é um convite a novidades. Ao nos desligarmos do racional, abrimos caminho para o devaneio, para os pensamentos livres que, de tão livres, podem lembrar um filme de Tim Burton. Quando divagamos estamos, mesmo que inconscientemente, coletando e arquivando uma série de referências que podem vir a ser usadas em breve ou no futuro, para resolver um problema ou desenvolver um projeto.

    “É como preparar uma refeição. Você vai buscar ingredientes em vários lugares para montar o prato”, afirma o professor Antonio Carlos Brolezzi, do Instituto de Matemática e Estatística da USP. A solução de um problema matemático, diz ele, é feita da reunião de diversas referências. Não importa quantas informações foram usadas para resolver o enunciado nem se a solução foi alcançada dentro ou fora dos padrões para aquela equação. O que vale é chegar à resposta, mesmo que para isso seja necessário um período de devaneio que pode levar centenas de anos. Centenas de anos, como assim?!? “O Teorema de Fermat demorou mais de 350 anos para ser resolvido e o matemático que o solucionou estudou-o por sete anos até chegar à solução”, afirma Brolezzi.

    Nesse meio-tempo, provavelmente houve momentos em que o matemático distanciou-se do teorema para arejar a mente; quem sabe pensou em desistir. “Quando não acho a resolução, deixo o problema de lado por um período. E, quando volto, vejo as coisas com outros olhos”, diz o físico brasileiro Marcelo Gleiser, que leciona no Dartmouth College, nos Estados Unidos. Mesmo se afastando da questão a ser resolvida, é preciso conservar a meta de ter algo a solucionar, e assim pode-se deixar a imaginação agir, sem correr o risco de se perder na viagem. “A coisa largada, sem uma motivação, pode atrapalhar mais do que ajudar. Precisamos ter uma meta. E, aí, deixar rolar”, diz Gleiser.

    Rede de conexões Na publicidade, que é um universo viajante por natureza (afinal, os criadores são pagos para convencê- lo de que aquela geladeira do reclame é bem melhor que a que você já tem), o devaneio é o combustível para a criação. Mas não pense que, só porque você vê bichos de pelúcia vendendo carros na TV, os publicitários compartilharam o narguilé com a centopeia de Alice no País das Maravilhas. A viagem na maionese publicitária tem suas regras – e todas bem estabelecidas. O criativo de uma agência precisa dar vazão a uma série de pensamentos que podem ser desconexos para vender ou divulgar um produto. Por isso ele precisa, além de um repertório criativo e imaginativo, ter disciplina. “Acima de tudo é necessário organizar a mente para ‘voltar à Terra’ e desenvolver uma campanha”, afirma o publicitário Pedro Pletitsch, diretor de arte da agência GNOVA e professor da Miami Ad School/Escola Superior de Propaganda e Marketing (SP), onde ensina publicitários a botarem os pés no chão após seus devaneios.

    Ao pensar em como vender um produto ou ideia (o que em outras áreas equivale a fazer um relatório diferenciado, preparar uma apresentação pra lá de convincente, escrever um livro e desenhar um móvel...), é imprescindível apelar para a mente racional. Só assim se consegue criar uma conexão entre o lúdico e o real. “Dizem que ser criativo é criar conexões entre coisas que parecem ser desconexas. É o caso do físico Isaac Newton, que mostrou que a mesma força da gravidade fez a maçã cair na sua cabeça e faz a Lua girar em torno da Terra”, afirma Gleiser.

    “O pensar resulta de várias articulações, e quando pensamos é como se estivéssemos nos retirando do mundo, mesmo que seja para pensar sobre o que é real”, diz a professora de filosofia da PUC-SP e terapeuta existencial Dulce Critelli. Precisamos nos desligar da realidade para pensar em qualquer coisa diferente, e temos que permanecer nela para concluir o pensar. Dulce ainda explica que o ser humano é incapaz de ficar no mesmo lugar, de se bastar com as mesmas coisas sempre. Daí ele devaneia, divaga e vai encontrando pistas que o levem a um estado além daquele em que está. “Vivemos pensando no que foi e no que será. O futuro está sempre em aberto e para refletir a respeito dele temos que dar vazão à fantasia. Tudo no mundo caminha para o que não está aqui.”

    E assim, pensando no que pode vir a ser, ou melhor, viajando sobre o futuro, cientistas, criadores, intelectuais e gente comum vão delineando a evolução do pensar, da criação e da história. O que seria da medicina sem a penicilina, ou da aeronáutica sem o helicóptero, desenhado por Leonardo da Vinci ainda no século 15 e tornado realidade no século 20? Ao observar as anotações de Da Vinci, muitas delas podiam parecer uma grande viagem naquela época. Mas várias ideias dessa salada “leonardiana” resultaram em coisas reais – inclusive o automóvel.

    Comprovação científica É comum as pessoas relacionarem as palavras devaneio, divagação e viagem a ideias desconexas, sem sentido e escapistas em relação à realidade. Mas isso é reflexo da imagem negativa que se construiu em cima do devaneio e da divagação. Freud tem sua parcela de culpa nisso, quando afirmou que sonhar acordado era algo infantil e neurótico – uma falha de disciplina mental. Alguns estudiosos que o seguiram acabaram por tachar crianças mais viajantes de desatentas e hiperativas, enquadrando muitas delas como portadoras do TDHA (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). “Claro que existem crianças com o transtorno, mas é importante cuidar para evitar a patologização da doença em todas as que saem do ‘normal’, segundo os conceitos sociais e da escola”, afirma André Meller Ordonez de Souza, da equipe pedagógica do Colégio Oswald de Andrade (SP).

    O problema, diz ele, é que o mundo atual é moldado na produção, no ser multitarefa, e as crianças foram arrastadas junto com essa corrente – tanto que aos 7 anos já têm agendas lotadas como a de executivos. Hoje, o lema é: fazer, cumprir, apresentar. E tudo dentro de prazos determinados; não sobra muito tempo para viajar nas ideias e executar melhor ou de um jeito mais criativo, diferente. “O devaneio vai contra esse mundo de produção e o lúdico, seja do adulto ou da criança, é o único espaço disponível para se conhecer o mundo e a si próprio”, diz Souza.

    O psiquiatra Fernando Milton de Almeida, do Núcleo de Estudos do Imaginário e da Memória da USP, concorda com a ideia de que há quem olhe torto para o devaneio porque ele atrapalha a produtividade desejada pelos moldes atuais. “Mas devanear é parte da condição humana. Mesmo que o conhecimento hoje seja acelerado e as pessoas ajam de maneira mais autômata, é fundamental devanear.” Com a mente livre para flanar, o ser humano exercita a imaginação e transita por outros lugares; recolhe material para criar, fica mais receptivo a insigths.

    De tão importante, o devaneio está presente até mesmo no dia a dia de quem acha que não se deve perder tempo com pensamentos desnecessários e sonhos malucos. Um estudo realizado por psicólogos da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apontou que passamos cerca de 30% do nosso tempo devaneando. Isso mesmo: todos nós viajamos na maionese em algum momento do dia. No experimento, enquanto liam romances como Razão e Sensibilidade e Guerra e Paz, os alunos pesquisados eram frequentemente indagados se estavam atentos ao livro ou se estavam com a cabeça em outro lugar. Diante das respostas, veio o veredito de que todo mundo divaga – é normal. “Eu creio que as conexões executivas do cérebro, que estão altamente comprometidas com o pensamento racional e lógico, também são ativadas no devaneio. Portanto, não considero o devaneio algo oposto ao pensamento racional”, afirma Jonathan Schooler, um dos coordenadores do estudo.

    O pesquisador diz que é importante percebermos quando devaneamos e que caminho percorremos durante essa viagem. “O segredo é ficar atento aos processos mentais para captar se o devaneio afeta suas tarefas. Se não atrapalha enquanto você está dirigindo, prossiga. Mas se desvia o foco, fazendo com que você freie em cima do carro da frente, tente ter mais consciência do que acontece ao seu redor.” Segundo a pesquisa, a criatividade é maximizada quando as pessoas percebem que suas mentes estão devaneando. “Acho que devaneio sem foco não vai ajudar em nada nossa compreensão ou abertura a novas teorias. Em todo o processo criativo, seja na poesia, seja na matemática, é necessária também uma dose grande de disciplina mental. O ideal é um balanço, uma abertura para os dois lados. Existem muitos caminhos para se chegar ao alto da montanha, mas a montanha é a mesma”, diz Marcelo Gleiser, que afirma só “se sentir humano munido de duas qualidades: devaneio e pensamento lógico.”

    Fonte: Revista Vida Simples

    domingo, 17 de abril de 2011

    É preciso dizer NÃO, por Juliana Bublitz

    A dificuldade dos pais em impor limites aos filhos colabora para a formação de jovens egocêntricos e narcisistas, alertam especialistas

    Quem tem filho, sabe: dizer não a crianças e adolescentes virou um desafio em diferentes sentidos. Se num passado não muito distante as decisões paternas eram inquestionáveis e tinham amparo na palmatória, hoje os pais do século 21 vivem dias incertos. A dificuldade de impor limites é tanta que em países como Estados Unidos já se alerta para os riscos de um futuro minado por jovens incapazes, acostumados desde a mais tenra idade a ter o ego inflado e todos os caprichos atendidos.

    Ao tratar do assunto no jornal The Huffington Post, o escritor, articulista e ensaísta Rob Asghar, da Universidade do Sul da Califórnia, desencadeou a polêmica. Preocupado com a forma como os norte-americanos estão educando os filhos, Asghar identificou o surgimento do que chamou de Geração N – ou Narcisista. Uma linhagem marcada pela total falta de limites e por um senso de merecimento fora do comum. Quase doentio.

    Por trás do fenômeno, concluiu Asghar, estariam pais angustiados.

    O trabalho em excesso e a correria do dia a dia teriam assumido a forma de culpa. O medo de perder o amor dos filhos acabaria levando muitos casais a cederem aos caprichos infanto-juvenis sem ponderações. O resultado disso, na avaliação do escritor, já pode ser detectado nas ruas dos Estados Unidos: estaria visível na conduta de jovens que se sentem no direito de tudo, sem trabalhar duro por nada.

    Por essas e por outras conclusões, o artigo acabou pautando discussões acaloradas em foros virtuais e na mídia.

    No Brasil, não é diferente. Afinal, diante da falência dos velhos modelos, qual é o melhor caminho para educar um filho? A resposta, segundo especialistas, não é tão simples quanto as conclusões de Asghar parecem indicar.

    Para o psiquiatra gaúcho José Outeiral, especialista no atendimento a crianças e adolescentes, as especulações do escritor são “banais” e “boas para vender livro”. Avesso a generalizações, Outeiral argumenta que pais que dão tudo aos filhos nem sempre estão errados e que há condutas muito mais preocupantes.

    – A depressão e a tendência antissocial não se devem a mimos em excesso na infância, mas a dificuldades de se estabelecer vínculos consistentes entre pais e filhos. O problema maior está no abandono – ressalta o especialista.

    Sarah, quatro anos, filha da chefe de cartório Aline Paim de Campos Carvalho, 35 anos, e do empresário Clênio Carvalho, 50 anos, desconhece o alerta feito por Outeiral. Desde que nasceu, a menina é o centro das atenções dos pais, que não poupam carinho e amor. Nem presentes.

    Sarah acumula uma coleção de brinquedos de dar inveja a muitas crianças: são cerca de 60 Barbies de todos os estilos – o que equivale a uma média de 15 bonecas por ano. Ela também tem a coleção inteira das Little Mommy, bebês que espirram, falam inglês, caminham e escovam os dentes.

    Apesar de tantos mimos, a mãe garante: a primogênita sabe que tem limites. É ensinada a respeitar os outros e a ajudar o próximo, inclusive separando bonecas para doação. Na opinião de Aline, esse é o diferencial em relação ao que ocorre nos Estados Unidos, onde o culto ao materialismo estaria se sobrepondo a valores básicos.

    – A Sarah ganha muitos presentes. E eu adoro dar, tenho condições para isso e não tenho por que negar. Mas tem uma coisa fundamental: eu faço questão de que ela tenha plena consciência de que trabalho duro para isso – diz Aline.

    Na casa dos oftalmologistas Carina Graziottin Colossi, 37 anos, e Manuel Vilela, 47 anos, o equilíbrio na educação de Antônio, 5 anos, também é motivo de preocupação. Filho único, ele teimava em ganhar presente sempre que ia ao shopping. Para mudar isso, Carina investiu no diálogo. Combina com Antônio se haverá ou não presentes antes de sair de casa. Ele aceita. Por ter pouco tempo com o filho em função do trabalho, a mãe admite que se sente culpada quando precisa dizer não:

    – É difícil, porque as crianças questionam tudo hoje em dia. É importante, porém, que saibam lidar com as frustrações desde cedo. Eu me preocupo muito com isso.

    Para a professora de Psicologia da Educação Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carina está certa ao se preocupar. Estabelecer limites e dizer não quando necessário, segundo a educadora, são atos de amor. Não de dor.

    – Se achar que precisa dizer não, o pai deve fazer isso sem ceder a chantagens. Inconscientemente, o filho vai sentir que ele se preocupa. As crianças precisam disso – aconselha Tania.

    Essa cartilha é seguida à risca pelos advogados Márcia e Antônio Ciriaco, cujos filhos estudam no Colégio Militar de Porto Alegre, conhecido por pregar a disciplina.

    O mais velho, Pedro, 16 anos, está se formando e tem uma rotina rigorosa de estudos – inclusive aos sábados e domingos. A caçula, Luísa, de 11 anos, segue o exemplo do irmão e usa a tradicional boina vermelha com orgulho.

    Vaidosa, ela bem que tentou ir à aula com as unhas pintadas. Embora tenha conseguido convencer a mãe, as regras da escola impediram. Luísa acabou tirando o esmalte, mas não ficou triste. Está acostumada a respeitar regras e princípios. Além de ter optado por estudar em uma instituição militar, é adepta do escotismo.

    – Nunca tivemos problemas. Mas às vezes a gente diz não. Se for preciso, fincamos o pé – afirma Márcia.

    A atitude, segundo o psiquiatra Renato Piltcher, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, está correta. Piltcher afirma que o maior erro que uma mãe ou um pai podem cometer é projetar no filho o ideal de uma vida sem frustrações.

    Ao dar tudo o que a criança pede e tecer elogios intermináveis, o responsável pode estar formando um adulto que, muito provavelmente, se desapontará com extrema facilidade. E que, por medo de não conseguir, deixará de tentar – seja o que for. Na opinião do psiquiatra, não há problema em dar bens materiais às crianças, desde que os pais não se esqueçam de algo não só importante, como fundamental: transmitir valores e ensinar o significado da palavra ética.



    José Outeiral, psiquiatra especialista em crianças e adolescentes

    Autor do livro Adolescer, o psiquiatra gaúcho José Outeiral, com quase quatro décadas de experiência no atendimento a famílias, crianças e adolescentes, discorda das conclusões do escritor norte-americano Rob Asghar. Para ele, é preciso tomar cuidado com generalizações.

    Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como o senhor avalia isso?
    José Outeiral – É uma generalização que não traduz a realidade. Além do mais, há muito tempo se escreve que a cultura contemporânea é marcada pelo narcisismo, basta ler as obras de autores como Bauman (Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida, entre outros livros).

    Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. O senhor concorda?
    Outeiral – Isso é uma banalização, um exagero. É o tipo de frase que serve para vender livro. Sempre existiram crianças mimadas, com baixa tolerância a frustrações, mas não se pode generalizar.

    Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
    Outeiral – O problema maior hoje é o abandono, nas diferentes classes sociais, contribuindo para quadros graves de depressão.


    Fabiani Ortiz Portella, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia

    Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Estado, a gaúcha Fabiani Ortiz Portella concorda que a falta de limites da chamada Geração N é preocupante. Na opinião da especialista, os pais devem dizer não, mesmo que se sintam culpados.

    Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como a senhora avalia isso?
    Fabiani Ortiz Portella – Tenho visto que muitos pais estão pecando ao não impor limites. A vida está tão corrida que a maioria não consegue mais parar para falar com os filhos, explicar o porque do não, dar referências básicas. Nesse sentido, acho que o autor está certo.

    Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. A senhora concorda?
    Fabiani – O que percebo é que as crianças de hoje estão mostrando um potencial surpreendente. São rápidas e inteligentes, muito mais do que nós fomos nessa época.

    Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
    Fabiani – O grande pecado que cometemos é não conversar o suficiente e não ensinar valores morais. A minha recomendação é que os pais digam não.

    Cartilha dos pais conscientes

    - Não tenha receio de dizer “não” quando necessário, mesmo que seu filho chore e que você se sinta culpado.

    - Tente não transparecer insegurança ao dizer “não”.

    - Deixe claras as razões pelas quais disse “não” e não volte atrás na decisão.

    - Ensine a criança ou o adolescente a se colocar no lugar do outro, para que aprenda a respeitá-lo.

    - Dê o exemplo. Se você disser para seu filho que ele não deve gritar, jamais diga isso gritando.

    - Lembre-se: o diálogo é o melhor aliado na educação. Converse muito com seu filho e não o subestime.


    juliana.bublitz@zerohora.com.br 

    Fonte: Jornal Zero

    segunda-feira, 11 de abril de 2011

    Mãe chinesa ou mãe judia?, por Claudio de Moura Castro*



    Diante do espetacular desempenho da cidade de Xangai no Pisa, escrevi sobre as mães chinesas. Citei a sino-americana Amy Chua, para quem o método consiste na disciplina rígida, imposta por meio da vara de marmelo e do foco obsessivo nos assuntos da escola. Isso tudo sob o manto de uma tradição confucionista que dá autoridade aos pais e valoriza a educação. Como me escreveu uma leitora sino-brasileira, eis “a regra que chineses têm adotado desde sempre: exigir o máximo de si e dos filhos. E dormir tranquilos, certos de haver feito o melhor”. Larry Wollf, judeu americano, comentou uma versão preliminar: “Comparados aos chineses, os alunos judeus são igualmente bons no SAT (uma prova equivalente ao nosso Enem) e muito melhores em criatividade. As famílias judias são muito centradas nas crianças – fazem delas o centro de afeto e atenção (por exemplo, gastos elevados em bar mitzvah, festas, acampamentos, viagens etc.). Além disso, tal como os chineses, têm expectativas muito elevadas em relação aos filhos. Contudo, expressam tais pressões de forma mais sutil e afetiva, reconhecendo que há outras aptidões que vão além das acadêmicas”.

    No embalo do sucesso de Chua, o jornal The Jewish Week dedica um longo artigo comentando vários livros sobre mães judias. No estilo judeu, em vez da vara de marmelo, há um toque de chantagem emocional: “Meu filhinho adorado, sua mãe vai ficar muito infeliz se você não for o primeiro” Para elas, funciona melhor um método gentil, sem ameaças nem violências. É mais sub-reptício, usando culpa ou despejando afeto nas crianças. Para que ameaças? As mães chinesas insistem mais em obediência, as judias encorajam a argumentação, seguindo a tradição judaica de discutir tudo. Em sociedades modernas e confusas, a dialética da discussão é preciosa. Há também a veneração pelos livros, sempre comprados, mostrados e lidos pelos próprios pais.

    Seja qual for a explicação, a fórmula vem dando certo. A população judaica mal chega a 14 milhões. É mais ou menos como a cidade de São Paulo. Soma 0,2% da população mundial. Não obstante, 128 Prêmios Nobel foram para judeus, correspondendo a aproximadamente 20% de todos os premiados.

    Como hoje as teorias genéticas de superioridade ou inferioridade estão desacreditadas, é preciso buscar outras causas. O conjunto de características associadas a valores, cultura, disciplina e hábitos mentais é o candidato mais forte. Tudo indica que a obsessão judia pela escola tenha um papel enorme. Mas, claramente, empurrar os filhos para os livros não basta. A pobreza cultural puxa para trás. Os próprios judeus que viviam no mundo árabe e migraram para Israel obtêm resultados notavelmente inferiores na escola, comparados aos originários da Europa, que já vieram bem mais educados. E nós com essa discussão? Na verdade, temos muito que aprender com ela. Não entremos aqui nas controvérsias. Basta constatar que tanto a disciplina rigorosa quanto a chantagem emocional produzem.

    O problema com nossas famílias é que não usamos nem um nem o outro método. Será por isso que o esforço é tão pouco e os resultados tão parcos? A força do afeto no método judeu parece mais próxima da nossa tradição cultural. Aliás, se os palestinos estão aprendendo com os seus vizinhos israelenses a valorizar mais a educação, por que não podemos fazer o mesmo? Durante uma viagem à China, um leitor sino-brasileiro foi convidado a falar em uma escola. “Tanto professores quanto alunos ficaram chocados com a enorme diferença de horas dedicadas a aulas e atividades curriculares. E com o contraste na dedicação e participação dos pais na vida estudantil.” Não obstante, meu ensaio anterior causou indignação em alguns pais brasileiros. Imagino que, para eles, o esforço de desligar a televisão para que os filhos estudem seja descomunal ou, pior, sem sentido.


    *  Claudio de Moura Castro -  economista
    Fonte: Revista Veja  – Edição 2211 – nº 14 - 6 de abril de 2011

    sábado, 26 de março de 2011

    Todos somos filósofos natos




    O questionamento e o esforço para compreender o mundo e o homem me levam a filosofar. E pergunto: de onde surgem os questionamentos que dão origem ao filosofar? Para mim o espanto é a base de todo o questionamento: com o espanto surgem questões e nasce um impulso para investigar e compreender as coisas desse mundo e do universo. Assim, emerge a ocasião para contemplar e refletir.
     Nesse sentido, o espanto é a fonte da filosofia: ela é possível em qualquer lugar e tempo, uma passagem para a compreensão e interação com o mundo que vivemos. Percebemos que estamos no mundo. Observamos o mundo e percebemos que as coisas estão sempre em mudanças: no entanto, para nós , o mundo aparece sempre o mesmo. Uma mesma coisa, que pode parecer diferente em outro lugar e em outro tempo.
    Percebendo tudo isso, nós nos espantamos. E, perguntamos: O que? Porquê? Para quê? Será que as coisas são realmente da maneira como se apresentam para nós? Além do mundo visível, existe outro mundo? Essas perguntas nós levam a filosofar. Criando,assim uma chance para o  entendimento filosófico. Sendo que esse impulso primordial precisa se transformar num entendimento filosófico, chegando até uma compreensão do mundo e a revelação do ser. A busca de compreensão das coisas finalmente nos leva à idéia de que o mundo não é apenas da maneira que ele mostra-se a nós, em um primeiro olhar... Que existe algo mais, algo não revelado a ser descoberto.
    E esse é o meu ponto de partida para despertar " curiosidade" através do espanto nos meus alunos.
    Certas questões são eternas e inerentes ao ser humano. Provavelmente nunca teremos as respostas para tais questões ou, melhor dizendo, há uma infinidade de respostas para elas. Questões como " o que somos nós?"" Por que estamos aqui?" "de onde viemos?" Para onde vamos?"
    Todas as pessoas são filósofas natas. Eu não me excluo. É próprio do ser humano questionar. É quase que instintiva no ser humano a busca pela verdade. Também eu achei que a busca da verdade merecesse a duração de uma vida. Parafraseando o aforismo de Hipócrates " longa é a arte e breve é a vida"  (Hipócrates versava sobre a medicina mas a frase é perfeita para a filosofia). Esta busca levou-me à filosofia . Esta é a minha busca: o eterno tentar responder aos "por quês".
    Resta agora a mais difícil das questões formuladas: como criar em meus alunos a vontade de filosofar. Como fazer com que eles sejam "contaminados" por tal " doença"?
    Sinceramente, há dias em que desanimamos . O que aconteceu com as pessoas de hoje? Shakespeare escreveu que " os velhos temem a juventude porque um dia foram jovens". Entretanto hoje temos que temer a juventude por sua apatia, falta de perspectivas e ideais e não por aquilo que Shakespeare quis dizer: a revolta, o idealismo extremo, a generosidade desmedida.
    Os jovens hoje parecem estar velhos.
    Para quem cresceu nos anos 60 e foi jovem nos anos 70 e 80 o  contraste é gigantesco, o conformismo é gritante e o consumismo asqueroso. Onde estão os jovens de hoje? Por que tanto desinteresse e desesperança? De qualquer modo estas são questões que eu também  quero responder. O que faço com meus alunos é tentar mostrar que cada pessoa pode conter todo um universo dentro de si. Tento agitar alguma coisa que (espero) ainda esteja viva neles apesar da busca incessante pelo tênis da moda, pelos ipods, etc.  Tento mostrar aos jovens para quem leciono que certas dúvidas que eles têm são dúvidas tão antigas quanto o ser humano. Tento inculcar nestas pessoas que ser mais é melhor que ter mais. É isto que busco.
    Marise von Fruhauf
    Imagem: Google

    Entrevista: Andreas Schleicher - Tarefa de governo: premiar – ou reprovar – os professores

    O diretor para educação da OCDE diz que melhoria do ensino exige preparar e recompensar os bons docentes. E tirar da sala de aula os maus profissionais

    Nathalia Goulart


     Schleicher: avaliação periódica dos docentes é útil aos próprios professores (Pauilo Giandalia)

    "Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por profissionais de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente"


    Às voltas com o mau desempenho de estudantes brasileiros, do ensino fundamental ao superior, o Ministério da Educação promete criar em breve um exame nacional para avaliar candidatos a professores. É o reconhecimento daquilo que diversos estudos empíricos vêm demonstrando: fazer a educação funcionar passa pelo aprimoramento dos docentes. O desafio não é exclusivo do Brasil. O jornal americano Los Angeles Times comprou uma briga com docentes locais, que pediram boicote à publicação, ao exibir um ranking em que o (mau) desempenho dos estudantes era atrelado ao de seus mestres. Situações como essas chamaram a atenção da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade formada por nações desenvolvidas, que acaba de realizar em Nova York o Primeiro Encontro Internacional sobre Professores, reunindo educadores, governos e ONGs. Para o físico alemão Andreas Schleicher, diretor para educação da OCDE e um dos coordenadores do encontro, governos de todo o mundo têm uma tarefa a cumprir: ensinar melhor seus professores, mantê-los motivados, premiar os bons profissionais - e reprovar os mal avaliados. "A meritocracia é um princípio muito importante. Manter a eficiência de um corpo docente implica não apenas dar aos professores oportunidade, apoio e incentivo para que continuem a fazer bem seu trabalho, mas também tirar da sala de aula aqueles que não são eficazes", diz. Na entrevista a seguir, Schleicher explica o atual desafio da carreira docente e conta como nações como Japão, Finlândia e Singapura vêm conseguindo bons resultados na área. "Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por professores de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente."

    Por que realizar um evento para repensar exclusivamente o papel dos professores? 

    Mais do que nunca, o progresso social depende da qualidade dos sistemas de educação. Porém, a qualidade do sistema de educação jamais excede a qualidade de seus professores - que depende de seleção, formação continuada, plano de carreira e avaliações constantes.

    De acordo com especialistas, aprimorar a formação do professor é um dos grandes desafios brasileiros na área da educação – e também uma questão fundamental para o desenvolvimento do país. Outra nações enfrentam o mesmo problema. É possível dizer que essa é uma questão universal no século XXI? 

    Sim, absolutamente. E a razão é simples: em qualquer país, sempre existiram bons professores. A diferença é que no passado apenas uma parte da população precisava ser educada para liderar o desenvolvimento do país. Mas o custo social e econômico dessa filosofia tornou-se alto demais. Atualmente, os sistemas de educação precisam qualificar todos os seus professores, e não só alguns, se quiserem que todos os seus cidadãos tenham um ensino de qualidade. Além disso, no passado era possível supor que o que se aprendia na escola valeria para a vida inteira. Agora, temos o Google e a digitalização das habilidades cognitivas, com mudanças rápidas no mercado de trabalho: os sistemas de educação precisam proporcionar formas complexas de pensar e trabalhar para que as pessoas não sejam substituídas facilmente pelo computador.

    Essa tarefa exige professores de qualidade. Como atrair os maiores talentos? 

    Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por profissionais de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente em países tão diferentes como Finlândia, Japão ou Singapura. Os candidatos a uma vaga de professor não se sentem atraídos por escolas organizadas como linhas de montagem. Eles desejam se deparar com uma organização de alta performance, com status, autonomia profissional e educação de alta qualidade atrelada ao profissionalismo, com sistemas eficazes de avaliação profissional e com carreiras diferenciadas. Portanto, essas são as questões que os países precisam resolver.

    Quais os desafios dos governos? 

    O primeiro é atrair candidatos qualificados e depois oferecer-lhes formação de boa qualidade. É difícil atrair bons candidatos se eles percebem que as instituições de ensino superior que formam professores não têm status na sociedade. Não é de espantar o fato de que os países que conseguiram elevar o nível de seu corpo docente são os mesmos que tornaram mais rígidos os critérios de admissão em seus programas de formação de professores. Igualmente importante é definir o que é um bom professor. Em muitos países, padrões assim guiam a formação inicial dos profissionais, a certificação, as avaliações de desempenho, o desenvolvimento profissional e o avanço na carreira. Em muitos sistemas de alta performance, a educação do professor não consiste apenas em fornecer o treinamento básico em temas relevantes e pedagogia, mas também desenvolver competências para a prática reflexiva.

    O Brasil aplicará pela primeira vez uma avaliação nacional para seleção de professores da rede pública. É uma medida positiva? 

    A avaliação do professor pode contribuir para a melhoria das práticas docentes, identificando pontos fortes e fracos. Também ajuda a atribuir aos professores a correta responsabilidade pelo nível do aprendizado de seus alunos. É um tipo de prestação de contas. Em geral, os professores veem avaliação e feedback de forma positiva. Em uma pesquisa realizada pela OCDE, 80% dos professores disseram que a avaliação é útil para o desenvolvimento profissional, e quase metade relatou que os resultados os levaram a aprimorar o conhecimento.

    Há algumas iniciativas no Brasil de promover o professor por seu mérito. Porém, essa ainda é uma questão controversa entre os profissionais

    A meritocracia é um princípio muito importante. Manter a eficiência de um corpo docente implica não apenas dar aos professores oportunidade, apoio e incentivo para que continuem a fazer bem seu trabalho, mas também tirar da sala de aula aqueles que não são eficazes.

    A questão salarial é muitas vezes apontada como obstáculo ao avanço da qualidade. Como o senhor enxerga essa questão? 

    Em alguns países, como Japão e Singapura, o governo acompanha de perto as variações de mercado para se certificar de que os salários dos professores são competitivos. Mas, na maioria dos países, os vencimentos são inferiores aos de outros profissionais graduados. No entanto, há muitos países onde o ensino ainda é atraente porque oferece aos professores um ambiente de trabalho fascinante e o salário se torna apenas o pano de fundo da questão. Igualmente, é importante oferecer um plano de carreira aos docentes. Se você disser a um jovem professor de matemática de 25 anos de uma escola primária que, daqui a 25 anos, ele continuará sendo a mesma coisa, ele não verá perspectivas em seu futuro. Os países bem sucedidos em educação promovem um ambiente que oferece novos horizontes ao professor, com crescimento profissional.

    Que habilidades os professores devem ter para enfrentar os novos desafios da educação? 

    Eles precisam equipar os alunos com as competências necessárias à formação de cidadãos ativos. Precisam personalizar as experiências de aprendizado para assegurar que todo estudante tenha a chance de ter sucesso e lidar com a crescente diversidade da sala de aula e as diferenças no estilo de aprendizado. Eles também precisam lidar com as inovações no currículo, na pedagogia e no desenvolvimento das ferramentas digitais.

    A tecnologia é um desafio aos professores? 

    Bons professores usarão bem as tecnologias – e, ao falar de tecnologia, me refiro tanto a recursos digitais quanto ao repertório adequado de estratégias pedagógicas.
    Leia também:
    'Quem precisa de escola em tempo integral no Brasil é professor, não aluno'


    Fonte: Revista Veja - on-line

    sábado, 12 de março de 2011

    José Saramago: ideias claras, escrita clara

    Confira entrevista concedida à NOVA ESCOLA em 2003, na qual Saramago argumenta que a língua é uma ferramenta de comunicação e cabe à escola ensinar a usá-la.

     Por Paola Gentile (pagentile@abril.com.br)



     "...ler em voz alta. Não há maneira melhor de ganhar consciência do que se lê e do que se poderá vir a escrever." 
    José Saramago nasceu em 1922 em Azinhaga, aldeia próxima a Lisboa, Portugal, para onde se mudou com seus pais ainda pequeno. Por dificuldades econômicas, interrompeu os estudos ao concluir o liceu (equivalente ao Ensino Fundamental). Voltou a estudar mais tarde, em curso técnico. Foi serralheiro, mecânico, desenhista, funcionário público, editor e tradutor antes de consagrar-se como um dos mais destacados escritores contemporâneos. Em 1998 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2009, publicou seu último romance, Caim. Saramago faleceu no dia 18 de junho de 2010, aos 87 anos, em sua residência, nas Ilhas Canárias.
    Conteúdo relacionado
    Tudo sobre: Produção de Texto

    O Prêmio Nobel de Literatura José Saramago começou a ter contato com livros ao freqüentar o curso técnico de mecânica, estimulado pela disciplina de Literatura. Escreveu seu primeiro romance aos 25 anos, Terra do Pecado, e parou. Ficou duas décadas sem nada publicar. Em 1966 lançou coletâneas de poemas e ensaios escritos nas horas vagas. Sua carreira literária decolou mesmo quando ele estava com 57 anos, com Levantado do Chão. Dono de narrativa de estilo inconfundível, faz de seus romances verdadeiras reflexões sobre o ser humano, suas preocupações mais íntimas e aspectos da vida que o inquietam. Saramago esteve no Brasil em maio de 2003, lançando o romance, O Homem Duplicado,  quando nos concedeu esta entrevista por e-mail, contando um pouco de seu processo de criação e de sua visão do papel do professor e da escola na formação do aluno leitor e escritor. "Cabe à escola ensinar o aluno a escrever corretamente", afirma o autor, para quem a língua é a mais eficiente ferramenta de comunicação e, como tal, "precisa estar sempre limpa e em condições de uso". As ideias de Saramago põem em questão o papel da escola no desenvolvimento da criatividade. Ele provoca os educadores ao afirmar que para navegar sem regras é preciso ser um bom condutor, e este não se faz sem aprendê-las. Saramago não espera - e portanto não cobra - da escola a subversão da língua, e sim seu domínio.

    O estilo de sua escrita muitas vezes subverte a estrutura da língua portuguesa, atitude raramente valorizada pelos professores quando manifestada pelos alunos. O senhor acredita que há pouca flexibilidade na forma de lecionar o português?
    José Saramago A escola deveria ensinar a ouvir. Cabe a ela ensinar o aluno a escrever corretamente e também explicar por que as regras são assim, e não de outra maneira. Mas a escola não será o lugar onde se subverte e revoluciona a estrutura da língua. Essa tarefa pertence aos escritores, se estes consideram que têm motivos para o fazer.

    A maneira como a língua é ensinada não influi no surgimento de novos estilos?
    Saramago Os estilos saem do ovo da sua própria necessidade. Ensine-se a pensar claro e a escritura será clara. E, já agora, gostaria que houvesse uma luta implacável contra o erro de ortografia. A língua é uma ferramenta de comunicação de todas a mais perfeita , e as ferramentas (pergunte-se a um operário) têm de estar limpas e em condições de trabalhar eficazmente.

    É difícil criar uma nova maneira de redigir quando existe toda uma norma culta que impõe regras a quem usa a língua?
    Saramago Como eu disse, a escola não é o lugar em que se subverte a estrutura da língua porque ela não tem preparação própria suficiente para se arriscar nessa aventura. As regras são como os sinais de trânsito numa estrada. Estão ali para orientar e dar segurança ao condutor. Claro que é possível viajar por uma rodovia onde não haja sinais de trânsito, mas para isso é indispensável ser um bom condutor. Aí está a diferença.

    Nas suas memórias de estudante, o que mais influenciou a sua carreira?
    Saramago Nada me influenciou verdadeiramente, nem ninguém. Salvo a seleta escolar (a coletânea de textos literários que havia à disposição dos alunos), que para mim fez as vezes da biblioteca que não existia na minha casa. Depois descobri o caminho das bibliotecas públicas, e foi aí, sem que eu pudesse sequer imaginá-lo, que o escritor começou a nascer.

    No início de sua carreira, a crítica literária muitas vezes foi negativa ao analisar suas obras, mas isso não o impediu de continuar...
    Saramago Uma ou outra crítica reticente ou negativa que algum dia me tenha sido feita não mereceria que lhe pusessem ao pescoço um cartaz tão terrível. Salvo, evidentemente, se se trata de opiniões que não chegaram ao meu conhecimento. De qualquer modo, nem a crítica mais destrutiva me faria desviar do meu caminho.

    O prazer que crianças e adolescentes sentem ao escrever corre o risco de ser minado por críticas negativas recebidas durante as aulas. Como seria a maneira mais adequada de analisar as redações dos alunos?
    Saramago Penso que a análise deveria ser não de julgamento, mas orientadora. O mais fácil de tudo é dizer "isto está bem" ou "isto está mal". Os problemas começam quando se quer explicar o porquê e se chega à conclusão de que afinal o que determinou o juízo, positivo ou negativo, foi simplesmente o gosto pessoal e intransmissível do mestre.

    De que maneira um professor de Língua Portuguesa incentiva e ajuda seus alunos a compor boas redações?
    Saramago Pondo-os para ler em voz alta. Não há maneira melhor de ganhar consciência do que se lê, e, portanto, do que se poderá vir a escrever. O que os signos impressos mostram é o desenho da palavra "embalsamada". Só a leitura em voz alta a "ressuscita" completamente. Os docentes dirão que não há tempo para isso, mas depois não terão outro remédio que corrigir erros que poderiam ter sido evitados. Se é que verdadeiramente os corrigem. Porque corrigir não é traçar um risco vermelho debaixo da palavra. Corrigir é reconstruir a palavra na mente do aluno.

    Como se dá o processo de criação de seus livros?
    Saramago É quase impossível lhe dar essa resposta. Pode-se recordar como nasceu a idéia de um romance, pode-se reconstituir mais ou menos o que no seu percurso foi consciente, mas, tal como sucede com os icebergs, o mais importante não se vê. O que sustenta o visível está por baixo. Sabe-se aonde se quer chegar, mas, exceto alguns pontos de passagem, não conhecemos o itinerário. Como escreveu Antonio Machado, o grande poeta espanhol, é o andar que faz o caminho.

    O senhor não planeja a obra que está iniciando?
    Saramago No meu caso particular, o romance cresce como cresce uma árvore. Suponha que a árvore conhece a altura que terá, o aspecto geral da espécie a que pertence, mas sabe (imagino que sabe) que não será igual à sua vizinha. Os ramos podem nascer-lhe mais acima ou mais abaixo, apontar para um lado ou para outro. Se tem um plano de crescimento, é possível dizer que nesse plano há tanto de liberdade como de necessidade. Para mim, seria impensável estabelecer um plano rígido para o livro, com cada coisa no seu lugar e um lugar para cada coisa. As associações de idéias, processo mental que não controlamos, podem levar-nos por caminhos que não havíamos previsto. Também na escrita a liberdade vai de braço dado com a necessidade.

    Depois de finalizar um romance, o senhor costuma modificar o que inicialmente escreveu, aumentar ou diminuir capítulos, inserir novos trechos?
    Saramago Volto à comparação com a árvore. Podemos conceber uma árvore capaz de corrigir-se a si mesma? Não ignoro que há autores que trabalham longamente sobre o texto, que desenvolvem, encurtam, intercalam. Não é o meu caso. Avanço devagar, com a preocupação de não deixar pontas soltas, e isso permite-me manter sempre "esticado" o fio narrativo. De todo o modo, não devemos esquecer que o texto é inseparável do momento em que é escrito. Há muito de aleatório no que se escreve.

    O que significa escrever para o senhor?
    Saramago É ir descobrindo que tínhamos na cabeça mais coisas do que havíamos suposto antes.

    Como o senhor escolhe os temas de seus romances?
    Saramago Não "escolho" os assuntos dos meus romances. São eles que se apresentam de súbito, e às vezes nas situações mais prosaicas. O autor é "escolhido" pelo assunto, não o contrário. Quando parar de redigir, isso significará que os temas deixaram de considerar-me capaz de lidar com eles. Quanto à circunstância de que eles sejam o que são e não outros, isso explicar-se-á, talvez, por determinados estímulos exteriores encontrarem eco na minha mente mais facilmente que outros.

    Há temas que o escolhem, então, com mais freqüência?
    Saramago
    Há que levar em conta a natureza pessoal do autor. Não tenho nada contra a alegria, mas sou e sempre fui melancólico. E tenho a veleidade de pensar que o ser humano cresce mais com a tristeza que com a alegria. Começando pelas crianças. Se uma criança está triste, melancólica, pensativa, deixemo-la em paz porque está a crescer.

    Quer saber mais?

    A Caverna, José Saramago, 352 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 39,50 reais
    A Concepção de Língua de Saramago: O Confronto Entre o Dito e o Escrito, Miriam Rodrigues Braga, 112 págs., Ed. Arte & Ciência, tel. (11) 3257-5871, 33 reais
    A Maior Flor do Mundo, José Saramago, 32 págs., Ed. Companhia das Letrinhas, 22 reais
    A Paixão Segundo José Saramago, Conceição Madruga, 150 págs., Ed. Campo das Letras (Portugal), tel. (11) 3673-8406 (Livraria Portugal) 96,50 reais
    O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago, 448 págs., Ed. Companhia das Letras, 43 reais
    O Homem Duplicado, José Saramago, 320 págs., Ed. Companhia das Letras, 37 reais
    Saramago Segundo Terceiros, Lilian Lopondo, 232 págs., Ed. Humanitas, tel. (11) 3091.2920, só consulta .

    LinkWithin

    Blog Widget by LinkWithin