domingo, 6 de fevereiro de 2011

Perguntas de crianças, por Rubem Alves



Perguntas de criança...


Há muita sabedoria pedagógica nos ditos populares. Como naquele que diz: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer ela a beber a água...” De fato: se a égua não estiver com sede ela não beberá água por mais que o seu dono a surre... Mas, se estiver com sede, ela, por vontade própria, tomará a iniciativa de ir até o ribeirão. Aplicado à educação: “É fácil obrigar o aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender aquilo que ele não quer aprender...”
Às vezes eu penso que o que as escolas fazem com as crianças é tentar força-las a beber a água que elas não querem beber. Brunno Bettelheim, um dos maiores educadores do século passado, dizia que na escola os professores tentaram ensinar-lhe coisas que eles queriam ensinar mas que ele não queria aprender. Não aprendeu e, ainda por cima, ficou com raiva. Que as crianças querem aprender, disso não tenho a menor dúvida. Vocês devem ser lembrar do que escrevi, corrigindo a afirmação com que Aristóteles começa a sua “Metafísica”: “Todos os homens, enquanto crianças, têm, por natureza, desejo de conhecer...”
Mas, o que é que as crianças querem aprender? Pois, faz uns dias, recebi de uma professora, Edith Chacon Theodoro, uma carta digna de uma educadora e, anexada a ela, uma lista de perguntas que seus alunos haviam feito, espontaneamente. “Por que o mundo gira em torno dele e do sol? Por que a vida é justa com poucos e tão injusta com muitos? Por que o céu é azul? Quem foi que inventou o Português? Como foi que os homens e as mulheres chegaram a descobrir as letras e as sílabas? Como a explosão do Big Bang foi originada? Será que existe inferno? Como pode ter alguém que não goste de planta? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um cego sabe o que é uma cor? Se na Arca de Noé havia muitos animais selvagens, por que um não comeu o outro? Para onde vou depois de morrer? Por que eu adoro música e instrumentos musicais se ninguém na minha família toca nada? Por que sou nervoso? Por que há vento? Por que as pessoas boas morrem mais cedo? Por que a chuva cai em gotas e não tudo de uma vez?”
José Pacheco é um educador português. Ele é o diretor ( embora não aceite ser chamado de diretor, por razões que um dia vou explicar...) da Escola da Ponte, localizada na pequena cidade de Vila das Aves, ao norte de Portugal. É uma das escolas mais inteligentes que já visitei. Ela é inteligente porque leva muito mais a sério as perguntas que as crianças fazem do que as respostas que os programas querem fazê-las aprender. Pois ele me contou que, em tempos idos, quando ainda trabalhava numa outra escola, provocou os alunos a que escrevessem numa folha de papel as perguntas que provocavam a sua curiosidade e ficavam rolando dentro das suas cabeças, sem resposta. O resultado foi parecido com o que transcrevi acima. Entusiasmado com a inteligência das crianças – pois é nas perguntas que a inteligência se revela – resolveu fazer experiência parecida com os professores. Pediu-lhes que colocassem numa folha da papel as perguntas que gostariam de fazer. O resultado foi surpreendente: os professores só fizeram perguntas relativas aos conteúdos dos seus programas. Os professores de geografia fizeram perguntas sobre acidentes geográficos, os professores de português fizeram perguntas sobre gramática, os professores de história fizeram perguntas sobre fatos históricos, os professores de matemática propuseram problemas de matemática a serem resolvidos, e assim por diante.
O filósofo Ludwig Wittgenstein afirmou: “os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”. Minha versão popular: “as perguntas que fazemos revelam o ribeirão onde quero beber...” Leia de novo e vagarosamente as perguntas feitas pelos alunos. Você verá que elas revelam uma sede imensa de conhecimento! Os mundos das crianças são imensos! Sua sede não se mata bebendo a água de um mesmo ribeirão! Querem águas de rios, de lagos, de lagoas, de fontes, de minas, de chuva, de poças dágua... Já as perguntas dos professores revelam ( Perdão pela palavra que vou usar! É só uma metáfora, para fazer ligação com o ditado popular! ) éguas que perderam a curiosidade, felizes com as águas do ribeirão conhecido... Ribeirões diferentes as assustam, por medo de se afogarem... Perguntas falsas: os professores sabiam as respostas... Assim, elas nada revelavam do espanto que se tem quando se olha para o mundo com atenção. Eram apenas a repetição da mesma trilha batida que leva ao mesmo ribeirão...
Eu sempre me preocupei muito com aquilo que as escolas fazem com as crianças. Agora estou me preocupando com aquilo que as escolas fazem com os professores. Os professores que fizeram as perguntas já foram crianças; quando crianças, suas perguntas eram outras, seu mundo era outro...Foi a instituição “escola” que lhes ensinou a maneira certa de beber água: cada um no seu ribeirão... Mas as instituições são criações humanas. Podem ser mudadas. E, se forem mudadas, os professores aprenderão o prazer de beber de águas de outros ribeirões e voltarão a fazer as perguntas que faziam quando eram crianças.

Rubem Alves
Imagem: Aqui

6 comentários:

Miguel Loureiro disse...

Marise
Gosto imenso do Ruben Alves e por isso vou fazer link no Contra, para este post, amanhã à 7 horas daqui, 5 daí.
Obrigado.

Nilce disse...

Oi Marise

Ruben Alves é sensacional e este texto é tudo.
Não podemos negar que as crianças são sabatinas a aprender regras de um currículo imposto e se perdem na sua verdadeira curiosidade.
O saber não é apenas o que está nos livros e sim a complementeção do desejo infindo de conhecer tudo que lhes parece interessante na vida.
Esses dois apenas se completam.
A curiosidade de uma criança não é restringida, eles querem saber o que se passa no mundo e não apenas em seus livros.
Parabéns pelo post.

Bjs no coração!

Nilce

Marise von disse...

Olá Miguel,

Obrigada de coração.
Também sou fã do Rubem Alves, desde que o conheci.
Tudo que ele escreve é simples,mas toca a nossa sensibilidade, a nossa alma.
O maior dom é exatamente ser entendido, compreendido por todos...
Um grande abraço,
Marise.

Marise von disse...

Nilce,
Concordo com você a curiosidade das criança é fantástica...é necessário cultivar sempre a nossa curiosidade.
Eu, principalmente, ficou meio doida com a curiosidade do meu filho... a cada objeto, palavra nova, ele quer saber o que é e também o por quê?
É preciso ter paciência...
Mas vale a pena, pois a curiosidade e as perguntas realmente movem o mundo e nos fazem crescer.
Um grande abraço,
Marise.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Rubem Alves
é a inspiração das minhas palavras.
Quando li o primeiro texto dele,
fiquei encantado com
a ternura de suas palavras,
e esta ternura me acompanha
desde sempre.

Que as cores da alegria
estejam sempre em tua vida.

Em@ disse...

Marise,
também gosto muito do Ruben A.E depois de ler este texto, fico também a pensar comigo mesma, o que raio faz a escola à maioria dos professores? digo maioria , porque conheço muitos colegas que nunca perderam a criança que já foram...e porque é que alguns nunca perdem de vista essa criança apesar de serem professores também?
beijo com saudades

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