domingo, 17 de abril de 2011

É preciso dizer NÃO, por Juliana Bublitz

A dificuldade dos pais em impor limites aos filhos colabora para a formação de jovens egocêntricos e narcisistas, alertam especialistas

Quem tem filho, sabe: dizer não a crianças e adolescentes virou um desafio em diferentes sentidos. Se num passado não muito distante as decisões paternas eram inquestionáveis e tinham amparo na palmatória, hoje os pais do século 21 vivem dias incertos. A dificuldade de impor limites é tanta que em países como Estados Unidos já se alerta para os riscos de um futuro minado por jovens incapazes, acostumados desde a mais tenra idade a ter o ego inflado e todos os caprichos atendidos.

Ao tratar do assunto no jornal The Huffington Post, o escritor, articulista e ensaísta Rob Asghar, da Universidade do Sul da Califórnia, desencadeou a polêmica. Preocupado com a forma como os norte-americanos estão educando os filhos, Asghar identificou o surgimento do que chamou de Geração N – ou Narcisista. Uma linhagem marcada pela total falta de limites e por um senso de merecimento fora do comum. Quase doentio.

Por trás do fenômeno, concluiu Asghar, estariam pais angustiados.

O trabalho em excesso e a correria do dia a dia teriam assumido a forma de culpa. O medo de perder o amor dos filhos acabaria levando muitos casais a cederem aos caprichos infanto-juvenis sem ponderações. O resultado disso, na avaliação do escritor, já pode ser detectado nas ruas dos Estados Unidos: estaria visível na conduta de jovens que se sentem no direito de tudo, sem trabalhar duro por nada.

Por essas e por outras conclusões, o artigo acabou pautando discussões acaloradas em foros virtuais e na mídia.

No Brasil, não é diferente. Afinal, diante da falência dos velhos modelos, qual é o melhor caminho para educar um filho? A resposta, segundo especialistas, não é tão simples quanto as conclusões de Asghar parecem indicar.

Para o psiquiatra gaúcho José Outeiral, especialista no atendimento a crianças e adolescentes, as especulações do escritor são “banais” e “boas para vender livro”. Avesso a generalizações, Outeiral argumenta que pais que dão tudo aos filhos nem sempre estão errados e que há condutas muito mais preocupantes.

– A depressão e a tendência antissocial não se devem a mimos em excesso na infância, mas a dificuldades de se estabelecer vínculos consistentes entre pais e filhos. O problema maior está no abandono – ressalta o especialista.

Sarah, quatro anos, filha da chefe de cartório Aline Paim de Campos Carvalho, 35 anos, e do empresário Clênio Carvalho, 50 anos, desconhece o alerta feito por Outeiral. Desde que nasceu, a menina é o centro das atenções dos pais, que não poupam carinho e amor. Nem presentes.

Sarah acumula uma coleção de brinquedos de dar inveja a muitas crianças: são cerca de 60 Barbies de todos os estilos – o que equivale a uma média de 15 bonecas por ano. Ela também tem a coleção inteira das Little Mommy, bebês que espirram, falam inglês, caminham e escovam os dentes.

Apesar de tantos mimos, a mãe garante: a primogênita sabe que tem limites. É ensinada a respeitar os outros e a ajudar o próximo, inclusive separando bonecas para doação. Na opinião de Aline, esse é o diferencial em relação ao que ocorre nos Estados Unidos, onde o culto ao materialismo estaria se sobrepondo a valores básicos.

– A Sarah ganha muitos presentes. E eu adoro dar, tenho condições para isso e não tenho por que negar. Mas tem uma coisa fundamental: eu faço questão de que ela tenha plena consciência de que trabalho duro para isso – diz Aline.

Na casa dos oftalmologistas Carina Graziottin Colossi, 37 anos, e Manuel Vilela, 47 anos, o equilíbrio na educação de Antônio, 5 anos, também é motivo de preocupação. Filho único, ele teimava em ganhar presente sempre que ia ao shopping. Para mudar isso, Carina investiu no diálogo. Combina com Antônio se haverá ou não presentes antes de sair de casa. Ele aceita. Por ter pouco tempo com o filho em função do trabalho, a mãe admite que se sente culpada quando precisa dizer não:

– É difícil, porque as crianças questionam tudo hoje em dia. É importante, porém, que saibam lidar com as frustrações desde cedo. Eu me preocupo muito com isso.

Para a professora de Psicologia da Educação Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carina está certa ao se preocupar. Estabelecer limites e dizer não quando necessário, segundo a educadora, são atos de amor. Não de dor.

– Se achar que precisa dizer não, o pai deve fazer isso sem ceder a chantagens. Inconscientemente, o filho vai sentir que ele se preocupa. As crianças precisam disso – aconselha Tania.

Essa cartilha é seguida à risca pelos advogados Márcia e Antônio Ciriaco, cujos filhos estudam no Colégio Militar de Porto Alegre, conhecido por pregar a disciplina.

O mais velho, Pedro, 16 anos, está se formando e tem uma rotina rigorosa de estudos – inclusive aos sábados e domingos. A caçula, Luísa, de 11 anos, segue o exemplo do irmão e usa a tradicional boina vermelha com orgulho.

Vaidosa, ela bem que tentou ir à aula com as unhas pintadas. Embora tenha conseguido convencer a mãe, as regras da escola impediram. Luísa acabou tirando o esmalte, mas não ficou triste. Está acostumada a respeitar regras e princípios. Além de ter optado por estudar em uma instituição militar, é adepta do escotismo.

– Nunca tivemos problemas. Mas às vezes a gente diz não. Se for preciso, fincamos o pé – afirma Márcia.

A atitude, segundo o psiquiatra Renato Piltcher, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, está correta. Piltcher afirma que o maior erro que uma mãe ou um pai podem cometer é projetar no filho o ideal de uma vida sem frustrações.

Ao dar tudo o que a criança pede e tecer elogios intermináveis, o responsável pode estar formando um adulto que, muito provavelmente, se desapontará com extrema facilidade. E que, por medo de não conseguir, deixará de tentar – seja o que for. Na opinião do psiquiatra, não há problema em dar bens materiais às crianças, desde que os pais não se esqueçam de algo não só importante, como fundamental: transmitir valores e ensinar o significado da palavra ética.



José Outeiral, psiquiatra especialista em crianças e adolescentes

Autor do livro Adolescer, o psiquiatra gaúcho José Outeiral, com quase quatro décadas de experiência no atendimento a famílias, crianças e adolescentes, discorda das conclusões do escritor norte-americano Rob Asghar. Para ele, é preciso tomar cuidado com generalizações.

Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como o senhor avalia isso?
José Outeiral – É uma generalização que não traduz a realidade. Além do mais, há muito tempo se escreve que a cultura contemporânea é marcada pelo narcisismo, basta ler as obras de autores como Bauman (Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida, entre outros livros).

Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. O senhor concorda?
Outeiral – Isso é uma banalização, um exagero. É o tipo de frase que serve para vender livro. Sempre existiram crianças mimadas, com baixa tolerância a frustrações, mas não se pode generalizar.

Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
Outeiral – O problema maior hoje é o abandono, nas diferentes classes sociais, contribuindo para quadros graves de depressão.


Fabiani Ortiz Portella, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia

Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Estado, a gaúcha Fabiani Ortiz Portella concorda que a falta de limites da chamada Geração N é preocupante. Na opinião da especialista, os pais devem dizer não, mesmo que se sintam culpados.

Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como a senhora avalia isso?
Fabiani Ortiz Portella – Tenho visto que muitos pais estão pecando ao não impor limites. A vida está tão corrida que a maioria não consegue mais parar para falar com os filhos, explicar o porque do não, dar referências básicas. Nesse sentido, acho que o autor está certo.

Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. A senhora concorda?
Fabiani – O que percebo é que as crianças de hoje estão mostrando um potencial surpreendente. São rápidas e inteligentes, muito mais do que nós fomos nessa época.

Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
Fabiani – O grande pecado que cometemos é não conversar o suficiente e não ensinar valores morais. A minha recomendação é que os pais digam não.

Cartilha dos pais conscientes

- Não tenha receio de dizer “não” quando necessário, mesmo que seu filho chore e que você se sinta culpado.

- Tente não transparecer insegurança ao dizer “não”.

- Deixe claras as razões pelas quais disse “não” e não volte atrás na decisão.

- Ensine a criança ou o adolescente a se colocar no lugar do outro, para que aprenda a respeitá-lo.

- Dê o exemplo. Se você disser para seu filho que ele não deve gritar, jamais diga isso gritando.

- Lembre-se: o diálogo é o melhor aliado na educação. Converse muito com seu filho e não o subestime.


juliana.bublitz@zerohora.com.br 

Fonte: Jornal Zero

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