segunda-feira, 4 de julho de 2011

Corruptinhos , por Ricardo Semler


É preciso separar tempo de aula para que a meninada pense no que eles fazem que perpetua a corrupção



Montamos um evento que reunia os 50 mais representativos brasileiros para discutir os nós górdios do Brasil. O evento chamava-se DNA Brasil. Num dos anos, o tema foi "Somos ou Estamos Corruptos?"

Um dos participantes, paladino da ética, confessou que tinha sido parado por um guarda rodoviário e, dada a pressa, decidiu colocar R$ 50 junto com a carteira de motorista.

Nós, brasileiros, participamos de uma longa série de pequenos subornos e atos que não achamos bonitos, mas consideramos um mal necessário, ou uma convenção cultural. Depois, apontamos os dedos para os eleitos pelo voto.

Sim, cada um dos partidos está compromissado com um sistema que envolve desonestidade estrutural. Mas cada brasileiro dá apoio contínuo à corrupção, mesmo na vida particular.

Desde o Cabral que veio com Pero Vaz de Caminha, passando pela alta elite que escolhia presidentes, a ditadura e a totalidade dos partidos existentes, o país sempre se caracterizou por grandes malandragens.
Nenhum político eleito tem o luxo de ser completamente honesto. E nós estamos sempre elegendo gente que exige propina, cargos ou favores -sob ameaça de paralisar o governo, como Dilma está percebendo.

O nosso Cabral atual, que anda de jatinho de empresário que depende de favores oficiais, não se digna sequer em ficar vexado. Sabe que vai ficar por isto mesmo. Talvez porque qualquer brasileiro aceitasse uma carona de jatinho em troca de ceder um favor? Afinal, não se troca voto por camiseta?

Claro que isto tudo não é uma característica apenas brasileira. Num congresso anticorrupção em Praga, lembrei à delegação alemã de que a lei deles -na época- permitia deduzir do imposto qualquer suborno dado a pessoas fora da Alemanha! Vê-se a hipocrisia da realpolitik.

E a formação desta mentalidade, começa na escola? Se a maçã da professora já é símbolo sutil, de que forma a educação pereniza a desonestidade? Existe algo mais institucional do que a "cola"?

E mais: alguns dos empresários e políticos mais jovens e destacados são príncipes da corrupção, desbancando o sonho de que as novas gerações seriam menos sórdidas do que as antigas.
A cidadania ensinada na escola não chega a este tema, porque é incômodo para os pais. Preferível falar de meio ambiente, ou ensinar a não atirar o pau no gato.

Precisamos separar tempo de aula -que está sequestrado por trigonometria e tabelas periódicas- para que a meninada pense no que eles já fazem -e veem os pais fazerem- que perpetua a corrupção.
Afinal, hoje estamos presos num ciclo eterno onde filho de corrupto corruptinho é.





RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. Escreve a cada 14 dias neste espaço.

Fonte: Folha de São Paulo 

2 comentários:

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

E quando nos
indignamos
com esta situação,
parece que somos nós
que estamos errados...

Vida plena em teus dias.

Nidi disse...

Noooossa! Esse post me fez refletir mto nos valores éticos e morais dos quais norteiam nossas escolas..
Parabéns pela escolha!

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