domingo, 3 de julho de 2011

O direito do finito, ou, quando a diferença não gera medo, por Mauricio João Farinon


É possível defender a extrema necessidade do elemento intelectual em questões éticas e morais: em ambas está presente a necessidade de compreensão do real, o que conduz à deliberação e a capacidade de justificar a decisão. O problema básico está na incapacidade de perceber o real, não conseguindo perceber para além do óbvio - sendo mais exato, muitos não conseguem perceber nem o óbvio. Surge, assim, o problema: como compreender, deliberar e justificar, diante de tamanho “déficit de visão”? A riqueza de mundo é condição – talvez não a única – para a lucidez intelectual e prática.

Defender a necessidade de maior percepção de mundo significa reconhecer o direito do finito. Não se pode seguir afirmando que no eterno, no imutável está a verdade e, em oposição, no efêmero, no exemplar sensível está a simples aparência carente de dignidade diante do eterno. Uma expressão de Theodor Adorno pode elucidar isto: o sofrimento, reduzido ao seu conceito, permanece mudo e seu conseqüências. A verdade é concreta, a dor e o sofrimento são concretos, e por mais que privilegiemos o conceito em relação ao sensível, nenhum intelecto pode reproduzir, em si mesmo, a dor alheia. Aqui é possível situar o direito do finito.

Nesta indicação reside uma das condições para a justiça social: repensar a relação entre todo e partes. Em primeiro lugar, nas diferenças não estão as marcas da desonra. Deste modo, querer, simplesmente, integrar, incluir no todo, tornar igual o que é diferente, pode ser sinal de violência. Por outro lado, a coesão social depende de um autêntico sentimento de pertença, de inclusão. Conseguir equilibrar isto é função política, ou seja, promover um estado onde, continuando com Adorno, é possível ser diferente sem ter medo. O que se deve questionar: é legítima a diferença ilimitada, ou devemos chegar a um ponto em que precisamos da identidade, pois minha diferença pode ser nociva, ou desequilibrada? Por isso é fundamental repensar a relação entre todo e partes.

Devemos retornar ao conceito de verdade e nos perguntar qual a verdade ou falsidade do momento da diferenciação e do momento da igualdade. É possível dizer que o problema está em tornar absoluto um ou outro momento. Na Grécia antiga, bárbaro era aquele que não fazia parte da cultura helênica. Hoje, a barbárie reside na indiferença, no déficit de visão que compromete radicalmente a capacidade de compreensão, de deliberação e de justificação. Este é o problema moral da nossa sociedade, a potencialização da abstração do outro, da indiferença, potencialização da inumanidade, já apontada por Rousseau: ser incapaz de sair de si e, orientado pela razão, ir em direção ao outro que sofre, em seu socorro. É cada vez mais radical conseguirmos cultivar este sentimento de humanidade. Sobre a educação recai esta tarefa de formar para o cultivo do único laço que efetivamente nos une: a responsabilidade.

*Mauricio João Farinon - Professor da área de ética e conhecimento da UPF

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