quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

É preciso ensinar os alunos a usar a tecnologia com consciência

Ensinar os jovens a fazer o uso adequado das ferramentas digitais os torna competentes na comunicação coletiva

 Por Catarina Iavelberg * (gestao@atleitor.com.br)
O conhecimento de novas tecnologias ainda encontra resistências na escola. Enquanto alguns educadores temem que o uso da internet, de softwares educativos e de plataformas de ensino a distância prejudique o processo de aprendizagem, outros negam a existência desses recursos didáticos por desconhecer suas potencialidades.

As tecnologias contemporâneas permitem a construção de leituras inovadoras do mundo e ampliam as possibilidades de articulação, construção e circulação da informação. Aprendemos com o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) que os limites da nossa linguagem denotam os limites do nosso mundo. Quanto maior a diversidade de ferramentas dominadas pelo aluno, maior será seu território de ação.

Hoje, presenciamos a articulação de movimentos sociais e da sociedade civil por meio de sites, redes sociais, blogs etc. Não é possível ignorar a quantidade e a qualidade de informações que circulam nos espaços virtuais. É fascinante a variedade de textos, imagens e vídeos existentes na web. Ensinar a criança e o adolescente a se apropriar dessas novas linguagens é a única maneira de torná-los competentes para a comunicação coletiva. Toda escola deveria assumir o compromisso ético de proporcionar aos alunos o uso adequado dessas ferramentas, dando, assim, subsídios para que sejam capazes de filtrar as informações disponíveis, produzir conteúdos e conseguir articulá-los de forma reflexiva.

O orientador educacional e os demais gestores podem contribuir ao auxiliar as equipes a investigar a internet não apenas como uma ferramenta para o conhecimento, mas como uma aprendizagem em si mesma. A linguagem da rede mundial tem uma estrutura própria, com signos e significados que precisam ser compreendidos. É comum as pessoas - inclusive os alunos - identificarem o espaço virtual como sendo de caráter privado e divulgarem informações particulares sobre si ou outros colegas. Ocorre, porém, que isso não é verdade e os problemas de convivência ficam superdimensionados - o cyberbullying é apenas um exemplo dessa prática inapropriada.

Realizar uma pesquisa sobre o uso da internet pelos estudantes pode fornecer pistas interessantes. Investigar, por exemplo, qual o tempo destinado às tecnologias, quais os sites e as redes sociais mais frequentados, a natureza dos jogos preferidos etc. Esse levantamento ajudará a mapear a intensidade e a qualidade da utilização dos recursos tecnológicos pelos alunos, fornecendo parâmetros úteis para a análise pela equipe docente.

Nesse ponto, as escolas deveriam estabelecer uma meta: buscar compreender, nas reuniões pedagógicas ou em outros espaços formativos, as estratégias didáticas para a aprendizagem das linguagens oriundas das novas tecnologias.

Para não cair em armadilhas, o importante é preservar, nos processos de ensino e aprendizagem, o sentido do conhecimento - ou seja, as preocupações e as indagações do aluno, da cultura e da sociedade. A escola que se empenha em inquietar o jovem, confrontando-o com questionamentos e conteúdos que o ajudam a entender o mundo em que vive, não deve temer a tecnologia, mas problematizá-la.

* Catarina Iavelberg  - É assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação. 

Fonte: Revista Nova Escola

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Que tipo de professor eu sou?


Nós, professores atuantes no ensino-aprendizagem de qualquer disciplina, em dado momento de nossas vidas, certamente nos questionaremos a respeito do tipo de professor que somos. De fato, este é um tema que exige bastante reflexão, pois são muitas as variáveis envolvidas para que consigamos chegar a uma resposta clara quanto ao tipo de professor que somos.

Devemos levar em consideração que somos o resultado de nossas experiências como seres humanos, como eternos aprendizes e de nossa percepção da questão aprendizagem/ensino (enquanto aluno) e de ensino/aprendizagem (enquanto professor). Além disso, é importante destacar que o processo de formação de um professor começa muito antes do curso de graduação, ele tendo noção quanto a isso ou não.


As estratégias usadas para aprender durante sua vida antes e durante o ciclo escolar, o meio em que foi criado, a influência das diversas pessoas que passaram por sua vida, os tipos de ensino a que foi exposto, os livros que leu, as decepções que sofreu, os desafios que superou entre tantos outros acontecimentos, são peças nesta construção por acabar que é o ser professor.


O breve olhar de um professor em seu passado já lhe permite lembrar os muitos modelos que passaram por sua vida e, também, o reflexo deles no modo como se ensina.


Quais estratégias preservou em seu ensinar, quais aboliu por discordar, quais substituiu e o que o motivou a isso, quais resignificou? É clara a influência destes modelos ou é preciso uma observação mais metódica para se enxergar estes outros docentes que o compõem?


Suas crenças do que é ser um bom ou mau docente, a motivação pela escolha da carreira - vocação, meio de subsistência, carreira, ocupação ou emprego1, sua busca por aprimoramento, a fé no outro (neste caso os alunos), a vontade de fazer diferença na sociedade tendo o poder de influenciar positiva ou negativamente um outro ser, são itens que mostram que tipo de professor você é.


Uma única resposta para esta pergunta “que tipo de professor eu sou?” é algo que é difícil de definir, pois, no minuto seguinte já há a possibilidade de ser um docente melhor sendo este ser em eterna evolução.


No entanto, vale muito a reflexão sobre que tipo de docente você é hoje, que tipo de docente você quer ser e o que precisa fazer para atingir isto. Aqui vão algumas dicas:
- Trace paralelos;
- Crie metas;
- Registre as mudanças que for percebendo e
- Lembre-se de que sempre é tempo de deixar para trás modelos que nos prendem e seguir adiante resignificando nossas práticas.





Sueli Bittencourt Belisário da Silva Diretora Pedagógica de uma escola de idiomas; Graduada em Letras pela Universidade do Vale do Paraíba e Pós-graduanda no curso Teachers’ Links: Reflexão e Desenvolvimento para Professores de Inglês pela PUC-SP. 


Imagem: Aqui

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Corrente do Bem


           Assistindo ao filme “A corrente do bem”  escrevi um pequeno texto sobre as impressões obtidas, relacionando-as a nossa realidade.
           Embora, possa ser acusado de um certo viés de pessimismo em relação à natureza humana, considero o filme “ A corrente do bem” um bom filme , embora de uma ingenuidade digna de contos de fada. 
Acredito que todos desejaríamos ser bons. Queremos nos julgar bons. Cada um de nós possuí um juízo sobre si próprio em que se julga “bom”. Mesmo o ladrão ou o assassino uma vez presos e provada indubitavelmente sua culpa, quando nem mesmo negam mais seus atos tentam justificá-los se não para os outros pelo menos para si mesmos. Mesmo o indivíduo mais condenável aos olhos da sociedade julga-se “bom”  e tenta justificar seus atos (quando a sociedade os condena) dizendo que “qualquer outro em meu lugar teria feito o mesmo”...
Assim quando assistimos a um filme como “ A Corrente do Bem” ficamos comovidos. Vivemos um momento em que  realmente “somos” os personagens do filme , ou pelo menos desejaríamos sê-los.  As idéias utópicas surgiram antes da criação da própria palavra “Utopia”. O filme , então, é uma pequena jóia de roteiro bem feito. A história e o modo como a mesma é contada nos arranca lágrimas.
Ao explicar o projeto, o professor convida os alunos a realizar uma ação, que seja documentada, através da qual eles consigam mudar o mundo, mesmo que minimamente.
O professor pode até não ter a intenção de realmente transpor os limites físicos da escola onde leciona e mudar o mundo para melhor , mas ao trazer a proposta para a escola, em algum momento ele iria deparar com um aluno que resolvesse assumir os riscos e realmente se propor a “arregaçar as mangas” para realizar tal intento. Entretanto lembremos que o professor , intimamente, não esperava que alguém realmente o levasse a sério. Vemos claramente isso no diálogo que o mesmo mantém com a mãe do aluno que o procura indignada com o fato de seu filho ter levado um mendigo para casa.
Surgiram várias idéias , mas a idéia de um aluno surpreendeu o professor. A sua proposta de fazer o bem para três pessoas desconhecidas, sem pedir nada em troca a não ser que esses beneficiados por sua bondade e solidariedade. Essas pessoas se prontificariam a também ajudar outras três pessoas, dando seqüência a uma corrente do bem. Assim, funcionam as correntes de orações, livros, dinheiro, etc...
A corrente do bem está relacionada com o imperativo categórico de Kant: “Age de maneira que possas querer que o motivo que te levou a agir seja uma lei universal”, a vontade é livre para Kant, assim como para o menino. Para ficar ainda em Kant cito a seguinte frase :” se uma pessoa age de acordo com a lei simplesmente por medo ou esperando alguma recompensa não há aí uma moralidade”.  Deste modo, nada obrigava o garoto do filme a fazer seu trabalho escolar daquele modo. Ele o fez porque o quis . Há no menino uma moralidade  , um idealismo e (como já disse acima) uma ingenuidade (própria das crianças) .
O imperativo categórico funciona como forma que serve para guiar nossa vontade. O bem surge na medida em que nós legislamos sobre nossa conduta, em relação à conduta de todas as pessoas.
          Quando a razão  cria normas, pensamos a partir de nós mesmos, em nossas necessidades, desejos e todos os seus limites. Mas, como criar normas para nós mesmos que sejam justas? Precisamos encontrar os imperativos, que nada mais são do que normas sem conteúdo, que servem para o indivíduo e para todo mundo. A regra é simples: “ o que é justo para mim deve ser justo para todos”. Existem dois imperativos em Kant, a saber, os imperativos hipotéticos, que organizam nossa vontade para conseguir objetivos, e os imperativos categóricos, que produzem o bem por meio da idéia de dever.



   Participe da Rifa Solidária, que foi organizada pelas blogueiras Elaine e Luci , com a participação de uma legião de blogueiras solidárias, com  objetivo de  ajudar as vítimas das chuvas e deslizamentos da tragédia que assolou a região serrana do Rio de Janeiro.
  Você pode ajudar! Participe  e divulgue!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Educar contra a barbárie, por Antonio Ozaí da Silva*

Você que nasceu nos anos 1960 sabe onde fica Auschwitz? Sabe o que aconteceu? E a geração dos anos 1980, será que aprendeu o significado de Auschwitz? Sabemos cultivar nas mentes e corações dos jovens a indignação diante da barbárie em Auschwitz e outros campos de concentração nazistas?

Nossa responsabilidade como educadores é enorme. A realidade que nos cerca expressa a barbárie e está prenhe de fatores que apontam para o risco da regressão. O mundo globalizado impele as pessoas em direção ao xenofobismo, à intolerância diante do outro, à idéia de que há uma inevitabilidade histórica, ao consumismo e ao individualismo desenfreado. Naturalizam-se as mazelas e misérias da condição humana, em nome de um determinismo amparado num viés tecnicista e nas necessidades da concorrência internacional, isto é, da predominância do mercado.

Prevalece a mesmice entediante e anestesiante. Espaços onde deveria frutificar a reflexão crítica mais parecem “cemitérios de vivos”. A crítica deu lugar ao comodismo e ao servilismo. Os poderosos de plantão decretaram que não existe alternativa e muitos acataram. Os problemas sociais que afligem enormes parcelas da humanidade, excluídas da mais elementar cidadania, parecem inevitáveis ou castigo. A condição humana continua a ser aviltada em situações que antes horrorizavam os bem-pensantes membros da classe média intelectualizada.

Enquanto isso nos voltamos para o nosso mundinho, para o nosso umbigo; para as veleidades da ambição acadêmica. Vaidosos, ostentamos nossos títulos acadêmicos como prova de pretensa superioridade intelectual. Títulos que nada provam. Mesquinhos, alimentamos nosso ego com o quinhão do poder burocrático. Em nossa arrogância, fetichizamos a técnica e o conhecimento sem atentarmos para o fato de que seu domínio pelo nazismo significou a supressão da humanidade. Como compreender que foram precisamente os cientistas, isto é, pessoas tituladas e diplomadas, que projetaram o sistema de morte que vitimizou milhões com rapidez e eficiência?

Donos da verdade, damos ouvidos às conversas de corredores, formalizamos a informalidade das relações em memorandos, protocolandos, etc. Transformamos o trivial e o ridículo em batalhas políticas – ainda que coloquemos em risco a sobrevivência econômica dos nossos colegas de trabalho. Substituímos a mais elementar solidariedade pela autofagia e pelo individualismo exacerbado.

Em nome da eficiência quantificamos tudo. Assim, repetimos outro procedimento presente em Auschwitz: a coisificação das relações humanas. A partir do momento em que não nos indignamos diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres humanos são descartáveis. Longe de pura abstração filosófica, este fenômeno está presente em nosso cotidiano nas questões que nos parecem mais banais. Numa realidade onde a vida humana pouco vale, a tendência é a crescente banalização do mal.

Como educadores, temos responsabilidade social. Ao invés de nos perdemos em discussões intermináveis e estéreis; de nos afogarmos em nossa própria vaidade; de gastarmos nosso precioso tempo na mesquinhez do emaranhado burocrático e na luta pelo poder de controlar os meios de prejudicar o outro; de nos desgastarmos em picuinhas e academicismos; eduquemos no sentido da auto-reflexão crítica e nos dediquemos à tarefa de esclarecer, para que se produza um clima intelectual, cultural e social que não permita a repetição de Auschwitz. O primeiro passo é repensarmos nossas práticas como educadores e nos indignarmos com tudo que nos lembre Auschwitz … 


*Antonio Ozaí da Silva - Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM); editor da Revista Espaço Acadêmico, Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e Revista Urutágua


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ser chique sempre, por Glória Kalil


Nunca o termo “chique” foi tão usado para qualificar pessoas como nos dias de hoje.  A verdade é que ninguém é chique por decreto. E algumas boas coisas da vida, infelizmente, não estão à venda. Elegância é uma delas. Assim, para ser chique é preciso muito mais que um guarda-roupa ou closet recheado de grifes famosas e importadas. Muito mais que um belo carro Italiano.

O que faz uma  pessoa chique, não é o que essa pessoa tem, mas a forma como ela se comporta perante a vida.

Chique mesmo é quem fala baixo. Quem não procura chamar atenção com suas risadas muito altas, nem colocar seus imensos decotes e nem precisar contar vantagens, mesmo quando estas são verdadeiras.

Chique é atrair, mesmo sem querer, todos os olhares, porque se tem brilho próprio. Chique mesmo é ser discreto, não fazer perguntas ou insinuações inoportunas, nem procurar saber o que não é da sua conta.
Chique mesmo é parar na faixa de pedestre. É evitar se deixar levar pela mania nacional de jogar lixo na rua. Chique mesmo é dar bom dia ao porteiro do seu prédio e às pessoas que estão no elevador.

É lembrar do aniversário dos amigos. Chique mesmo é não se exceder jamais! Nem na bebida, nem na comida, nem na maneira de se vestir.

Chique mesmo é olhar nos olhos do seu interlocutor. É “desligar o celular” quando estiver sentados à mesa do restaurante, e prestar verdadeira atenção a sua companhia. Chique mesmo é honrar a sua palavra,  ser grato a quem o ajuda, correto com quem você se relaciona e honesto nos seus negócios.
Chique mesmo é não fazer a menor questão de aparecer, ainda que você seja o homenageado da noite!

Mas  para ser chique, chique mesmo, você tem, antes de tudo, de  se lembrar sempre de  quão breve é a vida, e  que, ao final  vamos todos retornar ao mesmo lugar, na mesma forma de energia.
Portanto, não gaste sua energia com o que não tem valor, não desperdice as pessoas interessantes com quem se encontrar e não aceite, em hipótese alguma, fazer qualquer coisa que não te faça bem.

Investir em conhecimento pode nos tornar sábios… mas amor e fé nos tornam humanos!

Fonte: Revista Veja São Paulo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Tudo sobre Planejamento - Revista Nova Escola

Um guia com 110 links para você dominar a arte de planejar

Um bom planejamento requer ações em três esferas: a rede é responsável por dar as diretrizes gerais para o trabalho; o coordenador pedagógico deve organizar o planejamento da escola; e cada professor precisa definir suas atividades de sala de aula. Para ajudar nessa tarefa, preparamos este especial com tudo que você precisa saber em cada uma das esferas. Boa leitura! E, depois do merecido descanso de final de ano, mãos à obra!


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma aula show depende do(a) professor(a) e aluno(a)

    "  Se olharmos para as mudanças que acontecem no mundo, fica cada vez mais evidente a necessidade do conhecimento e do acesso à cultura para que não fiquemos para trás.
     Daí a importância da valorização do professor, da professora, que nos facilitam este acesso. Nesta entrevista com o professor Celso Vasconcellos, vemos a necessidade de olhar com mais carinho para os professores, começando com um abraço pelo seu dia."


 Celso Vasconcellos,
professor do Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica LIBERTAD, São Paulo, SP.
Site: http://www.celsovasconcellos.com.br
Endereço eletrônico: celsovasconcellos@uol.com.br

Mundo Jovem: Qual é o perfil do(a) professor(a) brasileiro(a)?

Celso: Não tenho um dado estatístico, mas a maior parte são mulheres que acompanham a Educação Básica, de um modo geral e chega a dois milhões e meio o número de professores que temos na Educação Infantil até o Ensino Médio.

     O(a) professor(a) é uma figura que tem várias faces. Sobretudo a figura de alguém batalhador, que aposta num projeto, que se envolve com uma concepção de humanidade e de transformação, mas ao mesmo tempo vive isso num contexto de muitas dificuldades, com muitas contradições e limites. Há aí uma certa ambivalência. É uma imagem que hoje foi um pouco quebrada, mas que resiste à quebra total. Ela vai teimando em se reconstituir apesar dos limites.


Mundo Jovem: Existe uma distinção entre “ser professor” e “estar professor”?

Celso: Uma coisa preocupante é que ficou fácil no país virar professor(a). O vestibular é fácil para entrar. Existem cursos mais facilitados. Na linguagem do mercado e das competências, tem vestibular que a relação candidato vaga é de menos um por vaga e também existem os subsídios de prefeituras etc. E aí fica fácil fazer o curso.

     Segundo o levantamento do MEC, o Brasil ainda precisa de 30 mil professores e com isso um contigente significativo de pessoas vem se tornando professor sem de fato ter feito uma opção por isto. Se isto é complicado em outras profissões, no magistério é mais ainda porque o desafio é enorme. O magistério exige presença, dedicação, afeto e, se a pessoa não está resolvida do ponto de vista profissional, isto complica muito.


Mundo Jovem: Que professor(a) os alunos esperam?

Celso: Aquele(a) professor(a) que antes de mais nada, os respeite. Isto passa por uma questão básica, fundamental que é a questão da presença ou da não falta. Infelizmente, a gente tem muitas faltas em escolas públicas. O(a) professor(a) faz isto às vezes como uma forma de protesto. Mas o aluno entende isso como um desprezo. A falta do(a) professor(a) gera no aluno um sentimento de que ele não é importante. São poucos os espaços que o aluno tem para ser ouvido e a falta do(a) professor(a) diminui essa possibilidade.

     Para mim o grande lance, hoje, do(a) professor(a) é ajudar o aluno a construir um sentido para a vida. Acho que aí está o grande nó; as pessoas estão meio perdidas e o(a) professor(a) tem uma obrigação social porque ele trabalha com o conhecimento. Ele é um dos elementos intelectuais. Ele teve oportunidade de se apropriar dos elementos significativos da cultura. Ele tem responsabilidade de ajudar os alunos. Não que ele estabeleça um projeto para o aluno, mas no momento em que ele disponibiliza elementos da cultura, o aluno pode constituir o seu próprio projeto de vida. Mais do que nunca o aluno quer um professor que transcenda.

     Alguns professores acham que têm que ser “engraçadinhos”, ter técnicas, recursos. Tudo isso é importante, mas você não sustenta uma relação pedagógica só com computador. Isso é recurso, mas o curso mesmo está ligado à figura do(a) professor(a).

     Há uma certa sede de mística. Não “fazer cabeças” ou fazer catequese, mas ajudar a pensar sobre o que ele está fazendo nessa vida aqui.


Mundo Jovem: Essa idéia se contrapõe àquela idéia de “aula-show” que é uma técnica utilizada em curso pré-vestibular?

Celso: Sim, porque a relação pedagógica, antes de mais nada, é uma relação de formação humana e não de entretenimento. O esforço do professor é tornar a aula o mais agradável possível, mas, parafraseando Einstein, “a gente pode simplificar a ciência o máximo possível, mas não mais do que o possível”. Mais do que isso é banalização. Infelizmente, há um certo processo de estetização: se contrapõe à reflexão, à ética. As pessoas ficam esperando um show, mas no fundo é colocar no outro a atividade. Você é o espectador. Numa aula com outra concepção, as coisas acontecem juntas, pois a participação do aluno é fundamental. A aula vai ser realmente “show” se tiver a participação do aluno e aí terá um outro tipo de fruição; o aluno vai ter o prazer de ajudar a construir e não ver a coisa pronta.


Mundo Jovem: O(a) professor(a) é uma peça chave na Educação?

Celso: Existem levantamentos que mostram a importância da gestão escolar. Realmente são papéis importantes. Mas quando se vê tanta ênfase aos gestores, me preocupa, pois parece que há um reflexo da demissão do(a) professor(a). Se tivéssemos professores mais atuantes, não se daria tanta ênfase aos gestores, como as pesquisas têm revelado. Parece que a escola, para ser boa, tem que ter bons gestores. Mas eu penso que a escola, para ser boa, tem que ter bons professores e eles, inclusive, vão assumir a gestão. O elemento forte é o coletivo de professores.

     O(a) professor(a) tem um papel fundamental e não deve ter medo de ser professor(a). Às vezes existem algumas limitações: “eu não posso falar professor, tenho que falar educador”; “não posso falar em ensino, tenho que falar mediação”... Ensinar não é transmissão somente. A atividade básica do(a) professor(a) é o ensino. Mas ensino é o processo de humanização através da apropriação crítica, criativa e significativa da cultura. Esse é o papel do(a) professor(a), pois conhecimento não se encontra em qualquer lugar.

     Em todo o lugar o aluno pode encontrar informação e não conhecimento, pois conhecimento é uma informação trabalhada, e isto é tarefa de mestre, de professor(a).

Mundo Jovem: A Educação está numa encruzilhada: se sai do giz, do quadro, vai para onde? Como o(a) professor(a) pode lidar com a tecnologia?

Celso: A rigor, a tecnologia cataliza, põe em evidência um problema que está colocado desde sempre, que é o problema da aula meramente expositiva. Mesmo recursos tecnológicos de baixa interação, como o livro, por exemplo, podem ser utilizados de maneira inteligente, sem precisar do computador. Dá para encaminhar em forma de pesquisa e trabalhar em cima das questões que os alunos levantarem depois da leitura. Existem escolas, às vezes com baixíssimo nível tecnológico, trabalhando com projetos, sem computador, sem internet. Isto já significa um outro papel do(a) professor(a). Ele(a) deixa de ser simplesmente o que “dá aula” e realmente acompanha os grupos de acordo com suas necessidades e aí se quebra o currículo disciplinar instrucionista, que infelizmente é ainda muito forte.


Mundo Jovem: Como humanizar a sala de aula?

Celso: Acho que a questão da humanização é a grande demanda: tornar a escola um espaço humano por excelência. A gente teria que perguntar o que é ser humano?

     Uma marca do ser humano é a disposição para aprender. Os animais também aprendem, mas o ser humano tem um desejo muito grande de aprendizagem. E uma outra parte complementar disso é a disposição para ensinar. No animal, isso é restrito. No ser humano, por exemplo, um adulto na relação com uma criança vai tentar ensinar alguma coisa para ela.

     Para mim, humanizar seria a escola se tornar de fato um espaço de ensino e de aprendizagem. O professor acreditar profundamente que o aluno pode aprender. E depois vem a dimensão do amor. A gente sabe que o processo de cognição vai junto com o processo afetivo.

     Quando a gente fala em humanizar a sala de aula é no sentido de trazer a vibração, a alegria, o encontro, o encantamento.


Mundo Jovem: E sobre essa questão do “aprender a aprender”, que também se estende ao(à) professor(a), isso representa uma mudança?

Celso: A rigor, isso não é novidade. Se a espécie humana tem como marca a aprendizagem e o ensino, com a questão da disponibilidade das informações, isto ficou mais claro. No passado até houve quem achasse que se saía da escola formado, pronto. Mas hoje, com a velocidade que tem a produção de conhecimentos, fica óbvio que isso não é possível.

     O “aprender a aprender” não é uma coisa nova, só que hoje está mais evidenciado. O professor precisa estar sentando junto e abrindo os caminhos para entender o mundo. É preciso ter um método para ler a realidade, para estabelecer uma finalidade, ter um plano de ação, agir e avaliar. E o espaço para isso seria na própria escola. O(a) professor(a) está vivenciando e continuamente aprendendo. Isso facilita que ele(a) faça o mesmo com o aluno. Quem não está vivendo o processo de aprendizagem tem dificuldade com a aprendizagem do outro. A pessoa que está vivenciando se torna mais sensível à realidade do aluno e pode ser um melhor “ensinador”.





Escola e mídia

     Muitas vezes, com a pulverização da mídia, os alunos vêm para a escola com interesses alienados. Há um desafio grande. Quando a gente está insistindo no(a) professor(a) como sujeito, na verdade a gente está pensando no aluno. É importante o(a) professor(a) assumir sua condição de sujeito para que o aluno também assuma a sua condição de sujeito.

     Não dá aqui para deixar de falar no Paulo Freire. A primeira grande obra dele: “Educação como prática da liberdade”, onde na primeira página ele diz claramente: “é preciso fazer uma opção, a gente quer a sociedade do ontem, do autoritarismo, da dominação, ou a gente quer a sociedade do amanhã, da libertação, da participação, da emancipação humana?” Por isto a gente precisa de um(a) professor(a) muito bem informado(a). E isto abre um campo para que os alunos possam exercer a sua autonomia com dignidade. O que a gente está vislumbrando mais é o aluno assumindo também o seu papel de protagonista da educação.

     Uma tarefa importante para os jovens é fazer uma leitura crítica dos meios de comunicação. A mídia está fazendo o papel de vender. A escola tem que fazer o papel dela, de motivar os alunos, possibilitar o envolvimento do aluno no processo de educação. A mídia diz assim: “o nosso papel não é educar, é informar”. Só que qualquer campanha que lançam, de qualquer produto, não estão lançando simplesmente uma informação. Eles usam muita psicologia, psicanálise, porque querem formar concepções, gerar necessidades. O argumento cabal em relação a isso é: se de fato a mídia não influenciasse, por que os empresários gastariam milhões com a mídia? Eles não gostam de jogar dinheiro fora. A escola deveria assumir o papel de fazer uma leitura crítica sobre a mídia.

Celso Vasconcellos

     Veja também outra entrevista com Celso Vasconcellos, publicada na edição de Julho de 2001 


Fonte: Jornal  Mundo Jovem  - Outubro de 2005 

Entrevista
publicada na edição 361, outubro de 2005

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Conheça o Jornal "mundo jovem"


Com um projeto, a vida ganha direção
Somos personagens que fazem a história
Dignidade: onde as religiões falam a mesma linguagem
Dia da Mulher: entre comemorações e interrogações

Conheça a edição nº 413  - Fevereiro /2011 - Jornal Mundo Jovem

ARTE E CULTURA
O compromisso social da arte (p.2)

EDUCAÇÃO
Motivação para estudar (p.4)

VIDA SAUDÁVEL
Educação Física além do esporte (p.5)

PSICOLOGIA
Viver...
e não ter a vergonha de ser feliz! (p.6)


JUVENTUDES
Projeto de vida
À procura de um tesouro (p.7)


GEOGRAFIA
Amazônia do “Brazil”! (p.8)

HISTÓRIA
Para que serve a história? (p.9)

CIÊNCIAS NATURAIS
A expressão da ecologia
Conhecimento e encantamento (p.10)


ESPIRITUALIDADE
Ecologia na cabeça, no coração e nas mãos (p.11)
ECOLOGIA
Produzir e consumir em harmonia com a natureza (p.12-13) veja mais

ENSINO RELIGIOSO
Valores nas religiões (p.14)

FILOSOFIA
Filosofar é preciso (p.15)

SOCIOLOGIA
Mulheres do início do século 21 (p.16)

SEXUALIDADE
As relações de gênero precisam mudar (p.17)

POLÍTICA E CIDADANIA
Recordar é preciso - As eleições de 2010 (p.18)

REALIDADE BRASILEIRA
Prevenção, a arma contra a violência (p.19)

PAIS E FILHOS
Família: essa moda pega? (p.20)

LÍNGUA E LITERATURA
Literatura e cinema: diálogo possível (p.21)

DOS LEITORES
(p.22)
Assinaturas 2011
Para assinaturas feitas até 5/1/2011:

Para 1 ou 2 assinaturas no pacote: R$ 42,00 (cada)
Para 3 até 19 assinaturas: R$ 31,00 (cada)
Para 20 até 49 assinaturas: R$ 30,00 (cada)
Para 50 ou mais assinaturas: R$ 28,00 (cada)
 
Endereço: Cx Postal 1429 - PORTO ALEGRE - RS / Fone: 0800-515200 - Fax: (51) 3320-3889
 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ganhei coragem, por Rubem Alves


“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece“, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos“. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: “O povo unido jamais será vencido“: é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo“ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os 10 mandamentos. E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre...“ Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela não era confiável. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis“ por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições – e a democracia - são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo“...

O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno“, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...“ Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.

(Folha de S. Paulo, 05/05/2002)

sábado, 1 de janeiro de 2011

O futuro de cada um de nós, por Eugenio Mussak


Se considerarmos que o que existe mesmo é o presente, por que dizem que é tão importante viver o tempo futuro? Qual é, afinal, nossa conexão com um tempo que ainda não existe e que nem sabemos se existirá?



Acompanhe esta história: o Paraná tem um símbolo que é praticamente desconhecido fora daquele estado: a gralha-azul. Trata-se de uma ave da família dos corvídeos, que encanta pela beleza de suas penas azuis, gradualmente mais escuras na cabeça e no peito. Para os paranaenses, esse animal-símbolo é tão importante que, diz a lenda, um caçador que tente acertá-lo com um tiro verá sua espingarda negar fogo ou até explodir, pois a gralha-azul é protegida dos espíritos da floresta das araucárias.

Tal devoção deve-se a uma característica do pássaro: ele é o responsável pela disseminação da Araucaria angustifolia, o majestoso pinheiro paranaense, que já recobriu a quase totalidade daquele estado e também de boa parte de toda a região Sul e de São Paulo.

O detalhe curioso fica por conta do método empregado pela gralha: ela enterra os pinhões e, destes, nascerão novos pinheiros. Trata-se então de uma semeadora compulsiva e incansável, que dedica sua vida à proliferação da bela árvore. A explicação para tal comportamento é que a gralhinha tem duas características: preocupação com o futuro e péssima memória. Enterra as sementes com a intenção de guardá-las e consumi-las mais tarde, mas esquece-se de onde as guardou, possibilitando assim sua germinação.

A gralha-azul é um dos poucos exemplos que colhemos no mundo natural de animal que tem preocupação com o futuro. Bichos têm consciência do presente, do aqui e agora, das necessidades imediatas, mas, com raras exceções, como a do pássaro sulista, vivem em total despreocupação com o dia de amanhã. Não conhecem tempo, não têm noção de futuro e, do passado, guardam apenas as memórias que reforçam seus instintos. E é nesse capítulo que encontramos um imenso diferencial humano: nós, sim, conhecemos o conceito de tempo. Sabemos que o presente em que nos encontramos tem conexões com um tempo que passou e com um tempo que virá.

Nunca saberemos quando o homem começou a ter tal noção de tempo, mas sabemos que somos a única espécie dotada de consciência temporal. A memória do passado e, principalmente, a imagem do futuro são qualidades mentais sofisticadas demais para qualquer outra espécie que não a humana. Nosso córtex cerebral é a parte mais elaborada de nosso cérebro e, com tais características, é uma exclusividade humana. Uma das qualidades do córtex é a análise de um número muito maior de variáveis a cada processo de tomada de decisão, entre elas, o tempo. Somos capazes, por exemplo, de adiar o prazer, e até aceitar algum sofrimento, desde que ele esteja a serviço de um futuro mais prazeroso. Essa é uma das vantagens competitivas que nos permitiram assumir uma posição de mando e controle no planeta, ainda que haja tanto descontrole.

Entretanto, mesmo entre nós, racionais, conscientes de nossa posição neste mundo e neste tempo, há variações na maneira de fazermos conexões com o futuro. Pelo menos três categorias são bastante claras, e, entre elas, diferentes graus de profundidade podem ser identificados: o descaso, a previsão e a construção. Vamos a elas.

• O descaso: Nesta categoria colocamos todos os que não se preocupam com o futuro, apesar de saberem que ele existe. Pare estes cabe a expressão latina carpe diem, que quer dizer “viva o presente”. É uma recomendação que se faz à pessoa que diz que será feliz, ou realizada, ou tranquila, “quando” acontecer alguma coisa. Quando se formar, quando comprar sua casa, quando ganhar dinheiro, quando casar, quando... Para esse tipo de pessoa, a felicidade é um projeto e não o que deve ser, um estilo de vida. Para uma pessoa assim, carpe diem nela!

O carpe diem com recomendação para que se aproveite o presente é excelente, mas, como desculpa para ignorar o futuro, pode virar uma armadilha. O que não dá para esquecer é que o futuro vai virar presente, e que este será melhor ou pior a depender das ações de hoje. Tudo está conectado, um ato de hoje terá repercussão amanhã.

Dizem os historiadores que a queda do Império Romano teve início no momento em que o carpe diem deixou de ser apenas um conselho e acabou por se transformar em filosofia de vida, seguida pelo imperador e, claro, por seus súditos. A despreocupação com o futuro cobrou, daquela gente, um pesadíssimo pedágio.

• A previsão: O futurólogo Michiu Kaku disse: “Previsão é uma coisa muito difícil, especialmente quando é sobre o futuro”. Mesmo assim, é a isso que esse professor do City College de Nova York se dedica, a prever o futuro, atendendo a um dos mais antigos desejos humanos. A História está repleta de exemplos de tentativas de previsão, dos antigos gregos em seus oráculos até a atualidade, quando cérebros privilegiados dedicam sua energia a apreciar uma paisagem ainda inexistente.

Nos oráculos gregos, era comum a presença das pitonisas, as sacerdotisas que previam o futuro. Para essas pessoas, prever tinha a ver com adivinhar, portanto havia algo de sobrenatural. Entretanto, a previsão do futuro não precisa habitar o reino da magia; pode viver na realidade, no reinado da lógica, vestindo a roupagem da ciência. Economistas, cientistas, sociólogos, empresários e outros tantos profissionais exercitam a arte e a ciência de prever, ainda que com parcimônia. Nesse campo, duas são as possibilidades. A primeira é forecast, do inglês “previsão”. Muito utilizada por todos aqueles que não desejam ser surpreendidos por fatos que poderiam ter sido previstos. Preferida dos economistas, sonda o futuro com as ferramentas dos dados, informações, gráficos. Podemos prever a inflação, a reserva de petróleo, a quantidade de chuva. Em todos esses casos, a previsão baseia-se em séries históricas anteriores, tendências concretas, análises científicas.

A segunda é foresight: outra palavra inglesa que também significa previsão. A diferença é que, nesse caso, a previsão não se vale de dados, mas de sentimentos; algo que poderia também ser chamado de intuição. Mas não há nada de místico nessa abordagem do futuro. A intuição, então, deriva da experiência de vida. E também de sua integridade mental, da qual fazem parte a serenidade e a calma interior. Pessoas que dominam sua área de atuação devem ser respeitadas quando se referem ao futuro. Em geral esses profi ssionais não são pegos de surpresa, pois têm, a seu favor, a consistência do forecast e a concordância do foresight. Imagine um empresário que diz: “O mercado continua consumindo este produto, e a tendência é que a demanda se amplie no próximo ano”. Acaba de usar o forecast. Se ele continuar seu raciocínio e disser algo como: “Mas, apesar de ainda termos estoque, acredito que devemos lançar já a segunda versão do produto”, estará usando seu foresight, seu faro empresarial.

• A construção: Já se disse que a melhor maneira de prever o futuro é construí-lo. E, nesse caso, estamos falando da capacidade excessivamente humana da sonhar e, claro, transformar o sonho em realidade. O homem é o único animal que tem noção de futuro, e é também o único ser capaz de exercitar a imaginação. A essa combinação maravilhosa damos o nome de sonho, que nada mais é que a imagem cristalizada de um futuro ideal.

Shakespeare escreveu: “Somos feitos da mesma matéria que compõe os nossos sonhos!” Com essa afirmação, conferiu uma nobreza à qualidade de sonhar. Mas, se todos sonhamos – pois não se trata de uma prerrogativa e sim de uma qualidade –, por que nem todos realizamos nossos sonhos? É que sonhos são como deuses, só existem enquanto acreditamos neles, e é forte a tendência de as pessoas sonharem com aquilo em que elas não creem.

Quem não sonha e não tem objetivos claros tateia na incerteza. Charles Dogson foi um matemático inglês especializado em lógica matemática que gostava de trilhar pelo tema que aproxima lógica de futuro. E, para falar sobre a lógica e a vida com as crianças, escrevia livros sob o pseudônimo de Lewis Caroll, sendo o mais conhecido Alice no País das Maravilhas. Nele há um diálogo impagável em que Alice, perdida, pergunta ao gato de Cheshire qual caminho deve seguir. O gato questiona então para onde ela deseja ir, e Alice responde que não tem certeza. Isso leva o felino falante a comentar: “Se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”.

Após dizer isso, o gato desaparece, mas deixa visível seu sorriso sarcástico, diante de uma Alice completamente atônita. É a metáfora explicando a atitude do mundo diante dos que não sabem aonde desejam chegar – ri sarcasticamente. Tema de refl exão para quem deseja pensar estrategicamente – ou a lógica do futuro ou o sarcasmo do gato de Cheshire.

Foto: Daniel Aratangy; ilustração: Lauro Machado / Estúdio Insólito

Fonte: Revista Vida Simples

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin