sexta-feira, 22 de abril de 2011

Folga mental

Perder o foco às vezes é importante. Precisamos disso para criar, inventar ou simplesmente viver bem.

texto Roberta De Lucca | ilustração Otavio Silveira fotos Renato Parada 

Era um dia qualquer e o matemático foi tomar banho. Ao entrar na banheira, percebeu que o volume de seu corpo imerso movimentava um volume igual de água. Naquele momento ele não se conteve. Saiu da banheira, atravessou a porta em direção à rua e, completamente nu, gritou “Eureca! Eureca!” (“Descobri”, em grego). Foi desse jeito, íntimo e inesperado, que o grego Arquimedes (287-212 a.C.) resolveu um problema que o atormentava havia tempo: descobrir se a coroa encomendada pelo rei de Siracusa era totalmente de ouro ou se o artesão contratado havia misturado prata (metal mais barato) à joia. Essa história – contada pela primeira vez pelo arquiteto romano Vitrúvio cerca de 200 anos mais tarde, e que acabou se tornando lenda – mostra que a partir de observações simples Arquimedes teria desenvolvido parte de sua importante teoria sobre a lei do empuxo.

Talvez ele nem estivesse pensando na coroa naquele momento. Quem sabe se preparava para participar de um banquete, ou estava simplesmente tomando um relaxante banho. O fato é que Arquimedes teve o impulso de observar o movimento da água na banheira – igual a um gato que fica “viajando” enquanto vê o líquido indo para lá e para cá em seu pote de água – e disso veio o insight para a solução do problema. Mesmo que não se saiba até que ponto essa história é verídica ou lenda urbana da Grécia antiga, ela revela que a mente despreocupada, divagante, é matériaprima para o pensamento, a existência e a evolução humana. Devanear, portanto, é importante para a vida.

Reunião de referências Pode parecer exagero dizer que devemos “viajar na maionese” para viver, mas sem essa viagem não alargamos nossos horizontes para abraçar tudo o que pudermos alcançar. Claro que é possível viver e curtir a vida numa rotina estabelecida, sem muitos riscos e surpresas que podem nos “tirar do prumo”. Mas deixar-se levar pelos pensamentos e ideias aparentemente desencadeados é um convite a novidades. Ao nos desligarmos do racional, abrimos caminho para o devaneio, para os pensamentos livres que, de tão livres, podem lembrar um filme de Tim Burton. Quando divagamos estamos, mesmo que inconscientemente, coletando e arquivando uma série de referências que podem vir a ser usadas em breve ou no futuro, para resolver um problema ou desenvolver um projeto.

“É como preparar uma refeição. Você vai buscar ingredientes em vários lugares para montar o prato”, afirma o professor Antonio Carlos Brolezzi, do Instituto de Matemática e Estatística da USP. A solução de um problema matemático, diz ele, é feita da reunião de diversas referências. Não importa quantas informações foram usadas para resolver o enunciado nem se a solução foi alcançada dentro ou fora dos padrões para aquela equação. O que vale é chegar à resposta, mesmo que para isso seja necessário um período de devaneio que pode levar centenas de anos. Centenas de anos, como assim?!? “O Teorema de Fermat demorou mais de 350 anos para ser resolvido e o matemático que o solucionou estudou-o por sete anos até chegar à solução”, afirma Brolezzi.

Nesse meio-tempo, provavelmente houve momentos em que o matemático distanciou-se do teorema para arejar a mente; quem sabe pensou em desistir. “Quando não acho a resolução, deixo o problema de lado por um período. E, quando volto, vejo as coisas com outros olhos”, diz o físico brasileiro Marcelo Gleiser, que leciona no Dartmouth College, nos Estados Unidos. Mesmo se afastando da questão a ser resolvida, é preciso conservar a meta de ter algo a solucionar, e assim pode-se deixar a imaginação agir, sem correr o risco de se perder na viagem. “A coisa largada, sem uma motivação, pode atrapalhar mais do que ajudar. Precisamos ter uma meta. E, aí, deixar rolar”, diz Gleiser.

Rede de conexões Na publicidade, que é um universo viajante por natureza (afinal, os criadores são pagos para convencê- lo de que aquela geladeira do reclame é bem melhor que a que você já tem), o devaneio é o combustível para a criação. Mas não pense que, só porque você vê bichos de pelúcia vendendo carros na TV, os publicitários compartilharam o narguilé com a centopeia de Alice no País das Maravilhas. A viagem na maionese publicitária tem suas regras – e todas bem estabelecidas. O criativo de uma agência precisa dar vazão a uma série de pensamentos que podem ser desconexos para vender ou divulgar um produto. Por isso ele precisa, além de um repertório criativo e imaginativo, ter disciplina. “Acima de tudo é necessário organizar a mente para ‘voltar à Terra’ e desenvolver uma campanha”, afirma o publicitário Pedro Pletitsch, diretor de arte da agência GNOVA e professor da Miami Ad School/Escola Superior de Propaganda e Marketing (SP), onde ensina publicitários a botarem os pés no chão após seus devaneios.

Ao pensar em como vender um produto ou ideia (o que em outras áreas equivale a fazer um relatório diferenciado, preparar uma apresentação pra lá de convincente, escrever um livro e desenhar um móvel...), é imprescindível apelar para a mente racional. Só assim se consegue criar uma conexão entre o lúdico e o real. “Dizem que ser criativo é criar conexões entre coisas que parecem ser desconexas. É o caso do físico Isaac Newton, que mostrou que a mesma força da gravidade fez a maçã cair na sua cabeça e faz a Lua girar em torno da Terra”, afirma Gleiser.

“O pensar resulta de várias articulações, e quando pensamos é como se estivéssemos nos retirando do mundo, mesmo que seja para pensar sobre o que é real”, diz a professora de filosofia da PUC-SP e terapeuta existencial Dulce Critelli. Precisamos nos desligar da realidade para pensar em qualquer coisa diferente, e temos que permanecer nela para concluir o pensar. Dulce ainda explica que o ser humano é incapaz de ficar no mesmo lugar, de se bastar com as mesmas coisas sempre. Daí ele devaneia, divaga e vai encontrando pistas que o levem a um estado além daquele em que está. “Vivemos pensando no que foi e no que será. O futuro está sempre em aberto e para refletir a respeito dele temos que dar vazão à fantasia. Tudo no mundo caminha para o que não está aqui.”

E assim, pensando no que pode vir a ser, ou melhor, viajando sobre o futuro, cientistas, criadores, intelectuais e gente comum vão delineando a evolução do pensar, da criação e da história. O que seria da medicina sem a penicilina, ou da aeronáutica sem o helicóptero, desenhado por Leonardo da Vinci ainda no século 15 e tornado realidade no século 20? Ao observar as anotações de Da Vinci, muitas delas podiam parecer uma grande viagem naquela época. Mas várias ideias dessa salada “leonardiana” resultaram em coisas reais – inclusive o automóvel.

Comprovação científica É comum as pessoas relacionarem as palavras devaneio, divagação e viagem a ideias desconexas, sem sentido e escapistas em relação à realidade. Mas isso é reflexo da imagem negativa que se construiu em cima do devaneio e da divagação. Freud tem sua parcela de culpa nisso, quando afirmou que sonhar acordado era algo infantil e neurótico – uma falha de disciplina mental. Alguns estudiosos que o seguiram acabaram por tachar crianças mais viajantes de desatentas e hiperativas, enquadrando muitas delas como portadoras do TDHA (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). “Claro que existem crianças com o transtorno, mas é importante cuidar para evitar a patologização da doença em todas as que saem do ‘normal’, segundo os conceitos sociais e da escola”, afirma André Meller Ordonez de Souza, da equipe pedagógica do Colégio Oswald de Andrade (SP).

O problema, diz ele, é que o mundo atual é moldado na produção, no ser multitarefa, e as crianças foram arrastadas junto com essa corrente – tanto que aos 7 anos já têm agendas lotadas como a de executivos. Hoje, o lema é: fazer, cumprir, apresentar. E tudo dentro de prazos determinados; não sobra muito tempo para viajar nas ideias e executar melhor ou de um jeito mais criativo, diferente. “O devaneio vai contra esse mundo de produção e o lúdico, seja do adulto ou da criança, é o único espaço disponível para se conhecer o mundo e a si próprio”, diz Souza.

O psiquiatra Fernando Milton de Almeida, do Núcleo de Estudos do Imaginário e da Memória da USP, concorda com a ideia de que há quem olhe torto para o devaneio porque ele atrapalha a produtividade desejada pelos moldes atuais. “Mas devanear é parte da condição humana. Mesmo que o conhecimento hoje seja acelerado e as pessoas ajam de maneira mais autômata, é fundamental devanear.” Com a mente livre para flanar, o ser humano exercita a imaginação e transita por outros lugares; recolhe material para criar, fica mais receptivo a insigths.

De tão importante, o devaneio está presente até mesmo no dia a dia de quem acha que não se deve perder tempo com pensamentos desnecessários e sonhos malucos. Um estudo realizado por psicólogos da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apontou que passamos cerca de 30% do nosso tempo devaneando. Isso mesmo: todos nós viajamos na maionese em algum momento do dia. No experimento, enquanto liam romances como Razão e Sensibilidade e Guerra e Paz, os alunos pesquisados eram frequentemente indagados se estavam atentos ao livro ou se estavam com a cabeça em outro lugar. Diante das respostas, veio o veredito de que todo mundo divaga – é normal. “Eu creio que as conexões executivas do cérebro, que estão altamente comprometidas com o pensamento racional e lógico, também são ativadas no devaneio. Portanto, não considero o devaneio algo oposto ao pensamento racional”, afirma Jonathan Schooler, um dos coordenadores do estudo.

O pesquisador diz que é importante percebermos quando devaneamos e que caminho percorremos durante essa viagem. “O segredo é ficar atento aos processos mentais para captar se o devaneio afeta suas tarefas. Se não atrapalha enquanto você está dirigindo, prossiga. Mas se desvia o foco, fazendo com que você freie em cima do carro da frente, tente ter mais consciência do que acontece ao seu redor.” Segundo a pesquisa, a criatividade é maximizada quando as pessoas percebem que suas mentes estão devaneando. “Acho que devaneio sem foco não vai ajudar em nada nossa compreensão ou abertura a novas teorias. Em todo o processo criativo, seja na poesia, seja na matemática, é necessária também uma dose grande de disciplina mental. O ideal é um balanço, uma abertura para os dois lados. Existem muitos caminhos para se chegar ao alto da montanha, mas a montanha é a mesma”, diz Marcelo Gleiser, que afirma só “se sentir humano munido de duas qualidades: devaneio e pensamento lógico.”

Fonte: Revista Vida Simples

domingo, 17 de abril de 2011

É preciso dizer NÃO, por Juliana Bublitz

A dificuldade dos pais em impor limites aos filhos colabora para a formação de jovens egocêntricos e narcisistas, alertam especialistas

Quem tem filho, sabe: dizer não a crianças e adolescentes virou um desafio em diferentes sentidos. Se num passado não muito distante as decisões paternas eram inquestionáveis e tinham amparo na palmatória, hoje os pais do século 21 vivem dias incertos. A dificuldade de impor limites é tanta que em países como Estados Unidos já se alerta para os riscos de um futuro minado por jovens incapazes, acostumados desde a mais tenra idade a ter o ego inflado e todos os caprichos atendidos.

Ao tratar do assunto no jornal The Huffington Post, o escritor, articulista e ensaísta Rob Asghar, da Universidade do Sul da Califórnia, desencadeou a polêmica. Preocupado com a forma como os norte-americanos estão educando os filhos, Asghar identificou o surgimento do que chamou de Geração N – ou Narcisista. Uma linhagem marcada pela total falta de limites e por um senso de merecimento fora do comum. Quase doentio.

Por trás do fenômeno, concluiu Asghar, estariam pais angustiados.

O trabalho em excesso e a correria do dia a dia teriam assumido a forma de culpa. O medo de perder o amor dos filhos acabaria levando muitos casais a cederem aos caprichos infanto-juvenis sem ponderações. O resultado disso, na avaliação do escritor, já pode ser detectado nas ruas dos Estados Unidos: estaria visível na conduta de jovens que se sentem no direito de tudo, sem trabalhar duro por nada.

Por essas e por outras conclusões, o artigo acabou pautando discussões acaloradas em foros virtuais e na mídia.

No Brasil, não é diferente. Afinal, diante da falência dos velhos modelos, qual é o melhor caminho para educar um filho? A resposta, segundo especialistas, não é tão simples quanto as conclusões de Asghar parecem indicar.

Para o psiquiatra gaúcho José Outeiral, especialista no atendimento a crianças e adolescentes, as especulações do escritor são “banais” e “boas para vender livro”. Avesso a generalizações, Outeiral argumenta que pais que dão tudo aos filhos nem sempre estão errados e que há condutas muito mais preocupantes.

– A depressão e a tendência antissocial não se devem a mimos em excesso na infância, mas a dificuldades de se estabelecer vínculos consistentes entre pais e filhos. O problema maior está no abandono – ressalta o especialista.

Sarah, quatro anos, filha da chefe de cartório Aline Paim de Campos Carvalho, 35 anos, e do empresário Clênio Carvalho, 50 anos, desconhece o alerta feito por Outeiral. Desde que nasceu, a menina é o centro das atenções dos pais, que não poupam carinho e amor. Nem presentes.

Sarah acumula uma coleção de brinquedos de dar inveja a muitas crianças: são cerca de 60 Barbies de todos os estilos – o que equivale a uma média de 15 bonecas por ano. Ela também tem a coleção inteira das Little Mommy, bebês que espirram, falam inglês, caminham e escovam os dentes.

Apesar de tantos mimos, a mãe garante: a primogênita sabe que tem limites. É ensinada a respeitar os outros e a ajudar o próximo, inclusive separando bonecas para doação. Na opinião de Aline, esse é o diferencial em relação ao que ocorre nos Estados Unidos, onde o culto ao materialismo estaria se sobrepondo a valores básicos.

– A Sarah ganha muitos presentes. E eu adoro dar, tenho condições para isso e não tenho por que negar. Mas tem uma coisa fundamental: eu faço questão de que ela tenha plena consciência de que trabalho duro para isso – diz Aline.

Na casa dos oftalmologistas Carina Graziottin Colossi, 37 anos, e Manuel Vilela, 47 anos, o equilíbrio na educação de Antônio, 5 anos, também é motivo de preocupação. Filho único, ele teimava em ganhar presente sempre que ia ao shopping. Para mudar isso, Carina investiu no diálogo. Combina com Antônio se haverá ou não presentes antes de sair de casa. Ele aceita. Por ter pouco tempo com o filho em função do trabalho, a mãe admite que se sente culpada quando precisa dizer não:

– É difícil, porque as crianças questionam tudo hoje em dia. É importante, porém, que saibam lidar com as frustrações desde cedo. Eu me preocupo muito com isso.

Para a professora de Psicologia da Educação Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carina está certa ao se preocupar. Estabelecer limites e dizer não quando necessário, segundo a educadora, são atos de amor. Não de dor.

– Se achar que precisa dizer não, o pai deve fazer isso sem ceder a chantagens. Inconscientemente, o filho vai sentir que ele se preocupa. As crianças precisam disso – aconselha Tania.

Essa cartilha é seguida à risca pelos advogados Márcia e Antônio Ciriaco, cujos filhos estudam no Colégio Militar de Porto Alegre, conhecido por pregar a disciplina.

O mais velho, Pedro, 16 anos, está se formando e tem uma rotina rigorosa de estudos – inclusive aos sábados e domingos. A caçula, Luísa, de 11 anos, segue o exemplo do irmão e usa a tradicional boina vermelha com orgulho.

Vaidosa, ela bem que tentou ir à aula com as unhas pintadas. Embora tenha conseguido convencer a mãe, as regras da escola impediram. Luísa acabou tirando o esmalte, mas não ficou triste. Está acostumada a respeitar regras e princípios. Além de ter optado por estudar em uma instituição militar, é adepta do escotismo.

– Nunca tivemos problemas. Mas às vezes a gente diz não. Se for preciso, fincamos o pé – afirma Márcia.

A atitude, segundo o psiquiatra Renato Piltcher, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, está correta. Piltcher afirma que o maior erro que uma mãe ou um pai podem cometer é projetar no filho o ideal de uma vida sem frustrações.

Ao dar tudo o que a criança pede e tecer elogios intermináveis, o responsável pode estar formando um adulto que, muito provavelmente, se desapontará com extrema facilidade. E que, por medo de não conseguir, deixará de tentar – seja o que for. Na opinião do psiquiatra, não há problema em dar bens materiais às crianças, desde que os pais não se esqueçam de algo não só importante, como fundamental: transmitir valores e ensinar o significado da palavra ética.



José Outeiral, psiquiatra especialista em crianças e adolescentes

Autor do livro Adolescer, o psiquiatra gaúcho José Outeiral, com quase quatro décadas de experiência no atendimento a famílias, crianças e adolescentes, discorda das conclusões do escritor norte-americano Rob Asghar. Para ele, é preciso tomar cuidado com generalizações.

Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como o senhor avalia isso?
José Outeiral – É uma generalização que não traduz a realidade. Além do mais, há muito tempo se escreve que a cultura contemporânea é marcada pelo narcisismo, basta ler as obras de autores como Bauman (Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida, entre outros livros).

Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. O senhor concorda?
Outeiral – Isso é uma banalização, um exagero. É o tipo de frase que serve para vender livro. Sempre existiram crianças mimadas, com baixa tolerância a frustrações, mas não se pode generalizar.

Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
Outeiral – O problema maior hoje é o abandono, nas diferentes classes sociais, contribuindo para quadros graves de depressão.


Fabiani Ortiz Portella, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia

Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Estado, a gaúcha Fabiani Ortiz Portella concorda que a falta de limites da chamada Geração N é preocupante. Na opinião da especialista, os pais devem dizer não, mesmo que se sintam culpados.

Donna – O escritor norte-americano Rob Asghar alerta para o surgimento da chamada Geração N, formada por jovens narcisistas, acostumados a ter tudo e incapazes de trabalhar duro. Como a senhora avalia isso?
Fabiani Ortiz Portella – Tenho visto que muitos pais estão pecando ao não impor limites. A vida está tão corrida que a maioria não consegue mais parar para falar com os filhos, explicar o porque do não, dar referências básicas. Nesse sentido, acho que o autor está certo.

Donna – Asghar afirma que os pais podem estar formando uma geração de jovens incapazes. A senhora concorda?
Fabiani – O que percebo é que as crianças de hoje estão mostrando um potencial surpreendente. São rápidas e inteligentes, muito mais do que nós fomos nessa época.

Donna – Muitos pais se torturam diante do dilema de impor limites às crianças. Isso é um problema?
Fabiani – O grande pecado que cometemos é não conversar o suficiente e não ensinar valores morais. A minha recomendação é que os pais digam não.

Cartilha dos pais conscientes

- Não tenha receio de dizer “não” quando necessário, mesmo que seu filho chore e que você se sinta culpado.

- Tente não transparecer insegurança ao dizer “não”.

- Deixe claras as razões pelas quais disse “não” e não volte atrás na decisão.

- Ensine a criança ou o adolescente a se colocar no lugar do outro, para que aprenda a respeitá-lo.

- Dê o exemplo. Se você disser para seu filho que ele não deve gritar, jamais diga isso gritando.

- Lembre-se: o diálogo é o melhor aliado na educação. Converse muito com seu filho e não o subestime.


juliana.bublitz@zerohora.com.br 

Fonte: Jornal Zero

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mãe chinesa ou mãe judia?, por Claudio de Moura Castro*



Diante do espetacular desempenho da cidade de Xangai no Pisa, escrevi sobre as mães chinesas. Citei a sino-americana Amy Chua, para quem o método consiste na disciplina rígida, imposta por meio da vara de marmelo e do foco obsessivo nos assuntos da escola. Isso tudo sob o manto de uma tradição confucionista que dá autoridade aos pais e valoriza a educação. Como me escreveu uma leitora sino-brasileira, eis “a regra que chineses têm adotado desde sempre: exigir o máximo de si e dos filhos. E dormir tranquilos, certos de haver feito o melhor”. Larry Wollf, judeu americano, comentou uma versão preliminar: “Comparados aos chineses, os alunos judeus são igualmente bons no SAT (uma prova equivalente ao nosso Enem) e muito melhores em criatividade. As famílias judias são muito centradas nas crianças – fazem delas o centro de afeto e atenção (por exemplo, gastos elevados em bar mitzvah, festas, acampamentos, viagens etc.). Além disso, tal como os chineses, têm expectativas muito elevadas em relação aos filhos. Contudo, expressam tais pressões de forma mais sutil e afetiva, reconhecendo que há outras aptidões que vão além das acadêmicas”.

No embalo do sucesso de Chua, o jornal The Jewish Week dedica um longo artigo comentando vários livros sobre mães judias. No estilo judeu, em vez da vara de marmelo, há um toque de chantagem emocional: “Meu filhinho adorado, sua mãe vai ficar muito infeliz se você não for o primeiro” Para elas, funciona melhor um método gentil, sem ameaças nem violências. É mais sub-reptício, usando culpa ou despejando afeto nas crianças. Para que ameaças? As mães chinesas insistem mais em obediência, as judias encorajam a argumentação, seguindo a tradição judaica de discutir tudo. Em sociedades modernas e confusas, a dialética da discussão é preciosa. Há também a veneração pelos livros, sempre comprados, mostrados e lidos pelos próprios pais.

Seja qual for a explicação, a fórmula vem dando certo. A população judaica mal chega a 14 milhões. É mais ou menos como a cidade de São Paulo. Soma 0,2% da população mundial. Não obstante, 128 Prêmios Nobel foram para judeus, correspondendo a aproximadamente 20% de todos os premiados.

Como hoje as teorias genéticas de superioridade ou inferioridade estão desacreditadas, é preciso buscar outras causas. O conjunto de características associadas a valores, cultura, disciplina e hábitos mentais é o candidato mais forte. Tudo indica que a obsessão judia pela escola tenha um papel enorme. Mas, claramente, empurrar os filhos para os livros não basta. A pobreza cultural puxa para trás. Os próprios judeus que viviam no mundo árabe e migraram para Israel obtêm resultados notavelmente inferiores na escola, comparados aos originários da Europa, que já vieram bem mais educados. E nós com essa discussão? Na verdade, temos muito que aprender com ela. Não entremos aqui nas controvérsias. Basta constatar que tanto a disciplina rigorosa quanto a chantagem emocional produzem.

O problema com nossas famílias é que não usamos nem um nem o outro método. Será por isso que o esforço é tão pouco e os resultados tão parcos? A força do afeto no método judeu parece mais próxima da nossa tradição cultural. Aliás, se os palestinos estão aprendendo com os seus vizinhos israelenses a valorizar mais a educação, por que não podemos fazer o mesmo? Durante uma viagem à China, um leitor sino-brasileiro foi convidado a falar em uma escola. “Tanto professores quanto alunos ficaram chocados com a enorme diferença de horas dedicadas a aulas e atividades curriculares. E com o contraste na dedicação e participação dos pais na vida estudantil.” Não obstante, meu ensaio anterior causou indignação em alguns pais brasileiros. Imagino que, para eles, o esforço de desligar a televisão para que os filhos estudem seja descomunal ou, pior, sem sentido.


*  Claudio de Moura Castro -  economista
Fonte: Revista Veja  – Edição 2211 – nº 14 - 6 de abril de 2011

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