quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos...



"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis". 

Fernando Pessoa.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Corruptinhos , por Ricardo Semler


É preciso separar tempo de aula para que a meninada pense no que eles fazem que perpetua a corrupção



Montamos um evento que reunia os 50 mais representativos brasileiros para discutir os nós górdios do Brasil. O evento chamava-se DNA Brasil. Num dos anos, o tema foi "Somos ou Estamos Corruptos?"

Um dos participantes, paladino da ética, confessou que tinha sido parado por um guarda rodoviário e, dada a pressa, decidiu colocar R$ 50 junto com a carteira de motorista.

Nós, brasileiros, participamos de uma longa série de pequenos subornos e atos que não achamos bonitos, mas consideramos um mal necessário, ou uma convenção cultural. Depois, apontamos os dedos para os eleitos pelo voto.

Sim, cada um dos partidos está compromissado com um sistema que envolve desonestidade estrutural. Mas cada brasileiro dá apoio contínuo à corrupção, mesmo na vida particular.

Desde o Cabral que veio com Pero Vaz de Caminha, passando pela alta elite que escolhia presidentes, a ditadura e a totalidade dos partidos existentes, o país sempre se caracterizou por grandes malandragens.
Nenhum político eleito tem o luxo de ser completamente honesto. E nós estamos sempre elegendo gente que exige propina, cargos ou favores -sob ameaça de paralisar o governo, como Dilma está percebendo.

O nosso Cabral atual, que anda de jatinho de empresário que depende de favores oficiais, não se digna sequer em ficar vexado. Sabe que vai ficar por isto mesmo. Talvez porque qualquer brasileiro aceitasse uma carona de jatinho em troca de ceder um favor? Afinal, não se troca voto por camiseta?

Claro que isto tudo não é uma característica apenas brasileira. Num congresso anticorrupção em Praga, lembrei à delegação alemã de que a lei deles -na época- permitia deduzir do imposto qualquer suborno dado a pessoas fora da Alemanha! Vê-se a hipocrisia da realpolitik.

E a formação desta mentalidade, começa na escola? Se a maçã da professora já é símbolo sutil, de que forma a educação pereniza a desonestidade? Existe algo mais institucional do que a "cola"?

E mais: alguns dos empresários e políticos mais jovens e destacados são príncipes da corrupção, desbancando o sonho de que as novas gerações seriam menos sórdidas do que as antigas.
A cidadania ensinada na escola não chega a este tema, porque é incômodo para os pais. Preferível falar de meio ambiente, ou ensinar a não atirar o pau no gato.

Precisamos separar tempo de aula -que está sequestrado por trigonometria e tabelas periódicas- para que a meninada pense no que eles já fazem -e veem os pais fazerem- que perpetua a corrupção.
Afinal, hoje estamos presos num ciclo eterno onde filho de corrupto corruptinho é.





RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. Escreve a cada 14 dias neste espaço.

Fonte: Folha de São Paulo 

domingo, 3 de julho de 2011

O direito do finito, ou, quando a diferença não gera medo, por Mauricio João Farinon


É possível defender a extrema necessidade do elemento intelectual em questões éticas e morais: em ambas está presente a necessidade de compreensão do real, o que conduz à deliberação e a capacidade de justificar a decisão. O problema básico está na incapacidade de perceber o real, não conseguindo perceber para além do óbvio - sendo mais exato, muitos não conseguem perceber nem o óbvio. Surge, assim, o problema: como compreender, deliberar e justificar, diante de tamanho “déficit de visão”? A riqueza de mundo é condição – talvez não a única – para a lucidez intelectual e prática.

Defender a necessidade de maior percepção de mundo significa reconhecer o direito do finito. Não se pode seguir afirmando que no eterno, no imutável está a verdade e, em oposição, no efêmero, no exemplar sensível está a simples aparência carente de dignidade diante do eterno. Uma expressão de Theodor Adorno pode elucidar isto: o sofrimento, reduzido ao seu conceito, permanece mudo e seu conseqüências. A verdade é concreta, a dor e o sofrimento são concretos, e por mais que privilegiemos o conceito em relação ao sensível, nenhum intelecto pode reproduzir, em si mesmo, a dor alheia. Aqui é possível situar o direito do finito.

Nesta indicação reside uma das condições para a justiça social: repensar a relação entre todo e partes. Em primeiro lugar, nas diferenças não estão as marcas da desonra. Deste modo, querer, simplesmente, integrar, incluir no todo, tornar igual o que é diferente, pode ser sinal de violência. Por outro lado, a coesão social depende de um autêntico sentimento de pertença, de inclusão. Conseguir equilibrar isto é função política, ou seja, promover um estado onde, continuando com Adorno, é possível ser diferente sem ter medo. O que se deve questionar: é legítima a diferença ilimitada, ou devemos chegar a um ponto em que precisamos da identidade, pois minha diferença pode ser nociva, ou desequilibrada? Por isso é fundamental repensar a relação entre todo e partes.

Devemos retornar ao conceito de verdade e nos perguntar qual a verdade ou falsidade do momento da diferenciação e do momento da igualdade. É possível dizer que o problema está em tornar absoluto um ou outro momento. Na Grécia antiga, bárbaro era aquele que não fazia parte da cultura helênica. Hoje, a barbárie reside na indiferença, no déficit de visão que compromete radicalmente a capacidade de compreensão, de deliberação e de justificação. Este é o problema moral da nossa sociedade, a potencialização da abstração do outro, da indiferença, potencialização da inumanidade, já apontada por Rousseau: ser incapaz de sair de si e, orientado pela razão, ir em direção ao outro que sofre, em seu socorro. É cada vez mais radical conseguirmos cultivar este sentimento de humanidade. Sobre a educação recai esta tarefa de formar para o cultivo do único laço que efetivamente nos une: a responsabilidade.

*Mauricio João Farinon - Professor da área de ética e conhecimento da UPF

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