quinta-feira, 14 de junho de 2012

Como superar uma grande paixão!

Por Ivo José Triches[1]
Refletir sobre esse assunto é para mim um dos mais apaixonantes. Espero que ao terminar de lê-lo você possa dizer que valeu a pena ter parado suas atividades para dedicar-se a essa leitura.
Claramente há uma intencionalidade principal neste escrito. Qual? Contribuir para melhorar o endereço existencial daqueles que necessitam dessa reflexão. Será que conseguirei atingir tal intento? Veritas filia temporis (a verdade é filha do tempo). Boa leitura!
1.   A base teórica deste artigo
Só eu sei o quanto eu não sei, mas do pouco que aprendi até hoje, não conheci nada tão significativo quanto a teoria de Espinosa (1632-1677) quando o assunto é a questão das paixões.
Se você já leu outros artigos meus, deve ter percebido que Espinosa já foi citado várias vezes. Ocorre que de fato esse pensador passou a influenciar muito a minha forma de pensar desde o dia que comecei a aprender aspectos do seu pensamento. Estou lendo suas obras. Li vários comentadores, principalmente a Marilena Chauí e Cláudio Ulpiano.
Na graduação em Filosofia praticamente não me lembro de ter visto algo sobre ele. Contudo, quando fui professor da Rede Estadual de Educação do Paraná tive o privilégio de ter conhecido um professor que marcou a minha vida. Foram dois encontros apenas. Foi Cláudio Ulpiano (UFF). Já falecido justamente por uma paixão da tristeza que o acompanhou por muitos anos, qual seja, o cigarro.
Evidentemente que abordarei aqui a questão da paixão amorosa. Entretanto, antes de chegar a ela torna-se necessário lhe apresentar alguns conceitos que são fundamentais na teoria espinosiana para que você de fato entenda essa temática, bem como possam orientar suas ações, se assim lhe convier. São eles:
- Conatus: força intrínseca a todos os seres que nos chamam para a vida. Em outras palavras: é a luta pela existência. Ninguém deseja conscientemente morrer. Por que nós somos mais assustados que os jacarés? Porque nossa visão é mais limitada. Temos o controle de no máximo 180º. Ao passo que o jacaré tem os olhos em cima da cabeça. Enxerga mais. Ele só reage se o seu conatus estiver ameaçado.
Outro exemplo: quando eu era pequeno, lembro-me que havia um homem muito mau lá na Linha Famoso, município de Descanso, Estado de Santa Catarina. Foi lá que passei os primeiros anos de minha infância, razão pela qual amo tanto o sítio.  Esse homem matava os outros com facilidade. Vivia envolvido em confusão. Quando ele ia à bodega tomar uma pinga, nunca ficava de costas para entrada do bar. Por quê? Porque tinha medo de ser ceifado. Ele matava o conatus dos outros e por isso temia que o seu fosse abatido.
Por isso que a expressão: “encostar a cabeça no travesseiro e dormir em paz” faz todo o sentido. Portanto, para Espinosa a regra é clara, ou seja, se nas minhas ações eu buscar fortalecer o meu conatus e também o conatus daqueles que me rodeiam, certamente minha capacidade de existir aumentará. No entanto a recíproca é verdadeira.
A partir desse pressuposto ele vai produzir o seu conceito de Ética que não é o foco aqui. Em outro momento escreverei sobre esse tema.
Hoje em dia fazemos o uso do conceito depressão com facilidade. Isso quando queremos nos referir a alguém que está triste, que não vê perspectiva em face do futuro, etc. Pois bem! Para Espinosa, essa pessoa está com o seu conatus enfraquecido. E por quê? Certamente porque está envolta em muitas paixões da tristeza. As pessoas – não todas - com as quais ela convive, podem estar com muitas paixões da tristeza também. É possível que estejam puxando essa pessoa para baixo, com “cabos de aço”, como bem sinaliza Lúcio Packter sistematizador da Filosofia Clínica. Desse modo é necessário entendermos o que são paixões e como elas se classificam, segundo Espinosa.
- O que são as paixões para Espinosa? São as vibrações, afecções que o nosso conatus sente. Elas são exteriores ao sujeito. A etimologia deste conceito é grega. Pathos = sofrer, deixar-se levar por... Daí deriva em nossa língua portuguesa a palavra patologia. De forma breve: a ciência que estuda as doenças. Associado a isso é relevante destacar que Platão considerava a paixão amorosa uma enfermidade do coração. Da mesma forma que nosso corpo sofre quando estamos com gripe, nosso coração padece quando estamos apaixonados. Uma visão negativa do conceito, evidentemente. Já para Espinosa esse conceito passa a ter uma conotação diferente.
Há sim uma ligação da etimologia dessa palavra com o significado atribuído por Espinosa, mas é apenas parcial. Isso porque para ele as paixões se classificam em dois grupos. As da tristeza e as da alegria.
O que são as paixões da Tristeza? São afecções, vibrações que o nosso conatus sente. Isso já foi dito acima você talvez esteja pensando. Uma vez existindo esse tipo de paixão em nós, nosso conatus ficará enfraquecido. Ele também definiu como paixões fracas. E por quê? Porque ao permitirmos que elas existam em nós, nossa capacidade de existir ficará diminuída.
Para mim isso está claro. Um ator social que se deixa levar pelas forças que vem de fora, que vive a partir das paixões da tristeza, vive menos até cronologicamente.
Como o texto ficaria excessivamente longo, não abordarei cada paixão como tenho o hábito de fazer em minhas aulas. Citarei apenas as principais. São exemplos de paixões da tristeza: o vício, a inveja, o ciúme, a mágoa, o ódio, etc.
Ao fazermos uma ligação com os seus três conceitos de conhecimento, poderemos afirmar, com segurança, que uma pessoa tomada por paixões da tristeza está apenas no primeiro. No nível da consciência (o segundo é o da razão e o terceiro o da ciência intuitiva). Ele compreende que sofre, mas escolhe não romper com essa lógica. Isso porque pensa no hedonismo que suas paixões lhe proporcionam. Não se dá conta que tem um caminho fácil no começo e espinhoso depois.
Para ilustrar isso vou exemplificar com a situação de muitos estudantes hoje. Há pessoas que fazem curso à distância do conhecimento. Preferem aqueles que são rápidos. Cujo diploma possa ser obtido sem grande esforço. Alguns desses cursos são ofertados na modalidade presencial, mas não há comprometimento por parte do estudante e, muitas vezes, das instituições também.
Assim o caminho que foi mais fácil no começo, tornar-se-á o mais difícil depois. Ele passou pelo curso, mas o curso não passou por ele. Não ocorreu a transcendência. Na hora que for chamado à responsabilidade terá grande dificuldade. Eu já presenciei isso com vários professores e professoras ao longo desses anos como Educador.
Isso implica em dizer que uma pessoa assim, deixa-se levar pelas forças que vem de fora. É um corpo marcado por outros corpos, como bem salientou Cláudio Ulpiano. Outro exemplo: o fiel que age conforme as orientações do seu líder religioso. Passemos agora a conhecer outra possibilidade de ser.
O que são as paixões da alegria? São as afecções ou vibrações que nosso conatus está afeto. Se em ti coabitarem mais paixões da alegria, você viverá mais até cronologicamente. Terá menos dores existenciais. Espinosa dizia que o homem forte é aquele que vive a partir das paixões da alegria. Seria o homem ético para ele. O homem da moral é aquele que vive a partir das paixões da tristeza.
Eu defino a felicidade como um estado de contentamento da alma. Ela é possível? Sim. No entanto dependerá das escolhas que fizermos. Não dá para desejar a felicidade permitindo que as paixões da tristeza tomem conta da minha existência. São exemplos de paixões da alegria: a virtude, a admiração, a amizade, a misericórdia, a bondade, o perdão, etc.
O que é a Liberdade para Espinosa? Consiste na capacidade que um ser tem de agir sem restrições. Partindo desse pressuposto podemos dizer que Deus é livre. E o homem? Pois então! Para ele o homem só consegue conquistar a sua liberdade se chegar ao terceiro conceito de conhecimento, qual seja, o da consciência intuitiva.
Liberdade e pensamento são dois conceitos importantíssimos na teoria espinosiana. O homem, por ser dotado de razão, é capaz de chegar ao conhecimento das coisas. A partir daí, se assim desejar, poderá ser o fundamento do seu próprio fundamento moral. Poderá inventar-se. Ele tem seu poder ampliado, e começa mudar o que vem de fora. Sendo, portanto, portador de liberdade.
A partir dos conceitos apresentados acima, chegamos, finalmente, próximo da compreensão de como poderemos superar uma grande paixão. Vamos adiante?
2.  A superação de uma grande paixão segundo Espinosa
De pronto enfatizo que eu também partilho dessa resposta apresentada por ele. Por isso no título não destaquei Espinosa.
Na sua obra chamada ÉTICA, mais precisamente na Quarta Parte na VII proposição ele afirma: “Uma paixão não pode ser reprimida nem suprimida senão por outra paixão contrária e mais forte do que a paixão a suprimir”.
Ao partir dessa afirmação vou – de forma breve – lhe apresentar como  as paixões amorosas eram vistas no séc. XVII. Na verdade, até hoje o sexo é visto, por muitos, como coisa suja, causa dos nossos pecados, etc.
Na época de Espinosa isso não era diferente. Quando alguém sofria os efeitos da paixão deveria sufoca-lá através da ascese, ou seja, do exercicio espiritual. Ao se autoflagelar[2], tomar banho frio, não tocar no corpo, acreditava-se que o homem chegaria mais próximo de Deus. O discurso era (e é, para muitos): o “importante é salvar a minha alma”. Para isso o corpo necessita padecer. Uma visão maniqueísta que Espinosa refuta com veemência. Ele nos diz que o fato de existir em mim o desejo por alguém, isso não se constitui em um mal nem em um bem. Dependerá de como eu agirei em face dessa paixão.
Se uma paixão ao realizar-se aumentar em mim a capacidade de existir isso se constituirá em um bem. Porém, se os resultados decorrentes da busca pela realização da referida paixão enfraquecerem o meu conatus, evidentemente, que a mesma será um mal. Nas palavras de Espinosa: “Uma paixão, na medida em que se refere à alma, é uma ideia pela qual a alma afirma uma força de existir de seu corpo, maior ou menor que antes. Portanto, quando a alma é dominada por alguma paixão, o corpo, ao mesmo tempo, é afetado por uma afecção que cresce, ou aumenta, ou diminui a sua potência de agir. Demais essa afecção do corpo recebe de sua causa a força de preservar no seu ser; ela não pode, pois, ser reprimida, nem suprimida, senão por uma causa corporal que afete o corpo contrariamente a ela, mais forte, e então, a alma será afetada pela ideia de uma paixão mais forte e contrária à primeira, isto é, a alma experimentará uma paixão mais forte, e contrária à primeira, que excluirá ou suprimirá a existência da primeira, e por isso, uma paixão não pode ser suprimida nem reprimida, a não ser que o seja por uma paixão contrária e mais forte”.  Ele escreve isso ainda dentro da proposição VII.
Imaginemos agora que uma pessoa se apaixone perdidamente por outra, mas não há a mínima possibilidade que tal paixão seja correspondida. Há basicamente duas possibilidades:
A primeira é que ela fique sofrendo e insistindo na tentativa de obter êxito. Se ela não conseguir tal intento as dores existenciais serão enormes. Ela sofrerá e fará o outro sofrer à medida que ficará perturbando a alma dessa pessoa. Isso poderá lhe causar danos irreparáveis tanto a ela que está afeta a essa paixão e depois nos outros envolvidos no processo;
A segunda possibilidade é que ela decida deixar que a pessoa amada siga seu caminho. Ao fazer isso, poderá canalizar todas as suas forças em outra atividade que seja socialmente aceita. A partir disso lentamente o tempo se encarregará de apagar as dores da paixão não correspondida. Ela perceberá que sua potência de agir será aumentada. Seu conatus voltará a estar fortalecido e novos dias virão.
Creio que tenha sido dessa afirmação acima de Espinosa que Freud construiu o seu conceito de sublimação. A Marilena Chauí afirmou no livro Espinosa, uma Filosofia da Liberdade que Marx e Freud produziram parte de suas ideias à luz do pensamento de Espinosa.
3.  Considerações finais
O lado bom de conhecermos a temática das paixões sob a perspectiva espinosiana é que as mesmas são tratadas sem o aspecto moralizante da grande maioria das religiões. Ao tentarmos compreender esse fenômeno sob o olhar circunscrito à razão, ficamos livres da culpa e da especulação que tanto mal fazem à alma humana.
Partilho daqueles que veem em Espinosa um pensador “embriagado de Deus”. Se partirmos do pressuposto de que Deus é vida e de que as paixões da alegria apresentadas por Espinosa são fontes da nossa longevidade, podemos inferir que há uma aproximação entre o que ele escreveu e o verdadeiro espírito de Jesus Cristo. Afinal uma das partes mais lindas do evangelho é a afirmação: “Eu vim para que todos tenham vida...”.
Evidentemente que conseguirmos substituir o vício pela virtude; a inveja pela admiração; o ciúme pela bondade e ou tolerância; a mágoa pelo perdão; a arrogância pela humildade, não é uma tarefa tão simples.
Contudo isso é possível. No último parágrafo de sua obra ÉTICA, Espinosa faz uma analogia com a joia. Diz-nos que da mesma forma que não é tão simples encontrarmos uma joia, mas ao encontra-lá não desejamos perdê-la, também não é fácil conseguirmos substituir as paixões da tristeza pelas da alegria. Entretanto à medida que conseguimos tal feito, não desejamos que esse novo momento acabe, porque o bem que elas nos proporcionam é incomensurável.
Espero que esse escrito tenha contribuído com sua formação e que suas escolhas sejam sempre as melhores.


[1]Ivo José Triches é escritor, palestrante e Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blog www.itecne.edu.br/ivo  também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.
[2] Sugiro que assista ao filme O Nome da Rosa. É um retrato da Baixa Idade Média e que perdura até nossos dias. No movimento Opus Dei e em muitas congregações religiosas, isso é uma realidade até hoje.  Ainda: para os carismáticos na Igreja católica e para muitas religiões evangélicas, o sexo é visto até hoje como algo negativo, pecaminoso, etc.
 

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