sexta-feira, 6 de julho de 2012

Triunfo do método, por Hélio Schwartsman

É de 99,99995% ("cinco sigmas") a probabilidade de que cientistas tenham detectado o bóson de Higgs -também conhecido como "partícula de Deus"- ou pelo menos algo muito parecido com ele. Se confirmada, é a mais importante observação no campo da física de partículas dos últimos 40 anos.
Escarafunchando suas propriedades, cientistas creem que poderão vislumbrar fenômenos desconhecidos e propor novas teorias, avançando para além do Modelo Padrão, às vezes chamado de "teoria de quase tudo", já que explica quase tudo que existe no Universo: matéria, energia e suas principais interações. As notáveis exceções são certos aspectos da gravidade e a energia escura.
O interessante na provável descoberta do bóson de Higgs é que ela consagra não só o Modelo Padrão como também o método científico.
Durante cinco décadas, essa partícula existiu apenas como previsão do modelo teórico, sem nenhuma corroboração empírica. Baseava-se em alguma matemática e muita fé dos cientistas na correção do Modelo Padrão em suas linhas gerais. A partícula de Deus, exceto por detalhes de forma lógico-matemática, era indistinguível de uma peça de literatura fantástica ou de um juízo religioso.
O problema é que o ser humano é uma espécie excessivamente criativa. Experimentos neurológicos mostram que, quando fatos desconexos são apresentados, o cérebro tende a uni-los por meio de narrativas. Elas não têm de ser verossímeis nem coerentes. Embarcamos nelas porque essa é a forma pela qual pensamos.
A moral da história é que devemos nos acautelar contra nossas ideias. Aí entra o método científico. Ele as mantêm sob eterna suspeita. Nada é mais que uma hipótese até que tenha sido corroborado por evidências empíricas. E, mesmo depois, torna-se no máximo uma verdade provisória, sujeita a ser falseada a qualquer instante. Ao menos em teoria, o método científico é o oposto do dogma. 

helio@uol.com.br

Fonte: Folha 

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin